Iepé acompanha trabalho dos Agentes Ambientais Indígenas do Oiapoque na coleta de ovos de tracajá

800 ovos foram coletados nessa etapa do projeto Kamahad tauahu de conservação dos quelônios nas Terras Indígenas do Oiapoque, realizado desde 2003 na região do Rio Uaçá

Ninho de tracajá. Foto: Rita Lewkowicz, 2019.

Kamahad tauahu, que significa “amigo do tracajá” na língua kheuol, foi o nome dado ao projeto de conservação dos quelônios que vem sendo realizado desde 2003 nas Terras Indígenas do Oiapoque. Durante esses 16 anos, o projeto foi ganhando mais força, apoio e abrangência, contando agora com a nova turma de Agentes Ambientais Indígenas, em fase final da formação como Técnicos em Meio Ambiente. Nos meses de setembro e outubro, realiza-se a coleta dos ovos de tracajá, que são transplantados para incubadoras nas aldeias, onde os ninhos ficam protegidos dos predadores. Depois da eclosão dos ovos, os Agentes Ambientais Indígenas cuidam dos filhotes durante aproximadamente 4 meses e então realizam a soltura dos tracajás de volta nos rios e igarapés onde foram coletados os ovos.

Envolvendo as crianças na discussão sobre gestão socioambiental

No dia 17 de setembro, o grupo dos Agentes Ambientais Indígenas, junto aos parceiros do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena – Iepé, da Fundação Nacional do Índio – FUNAI, da Secretaria Municipal do Meio Ambiente – SEMMAM, e de professores do curso de Licenciatura Intercultural Indígena da Universidade Federal do Amapá – UNIFAP, realizaram um evento com as crianças e professores indígenas da escola municipal da Aldeia Kumarumã (localizada na região do Rio Uaçá, TI Uaçá). Reunidas no Casarão Comunitário da aldeia, as crianças dialogaram com os agentes ambientais sobre o projeto de coleta dos ovos de tracajá, o objetivo do projeto e a importância de todos se envolverem para garantir que a espécie, já ameaçada, não desapareça nas TIs de Oiapoque. Além da questão ecológica, o tracajá tem uma importância fundamental na segurança e soberania alimentar dos povos indígenas do Oiapoque.

Alunos da Escola Municipal da Aldeia Kumarumã participam de evento “Kamahad tauahu”. Foto: Rita Lewkowicz, 2019.

Os técnicos da SEMMAM falaram sobre a preocupação com os resíduos sólidos e sobre o projeto de coleta de pilhas e baterias, através da criação de um local na aldeia onde esses resíduos possam ser armazenados e posteriormente retirados da Terra Indígena. Também falaram sobre o óleo de cozinha usado e promoveram uma oficina de produção de sabão, a partir deste resíduo.

SEMMAM apresenta projeto de gestão dos resíduos sólidos e reaproveitamento do óleo de cozinha usado. Foto: Caviano Benjamin Forte, 2019.

Projeto de manejo do tracajá: etapa de coleta dos ovos

Nos dias 18 e 19 de setembro, os Agentes Ambientais Indígenas que se dividiram em grupos para percorrer a extensa área de campos alagados na subida do Rio Uaçá, em busca dos ninhos de tracajá intactos. Uma especificidade do manejo dos quelônios nas Terras Indígenas do Oiapoque é o local onde os ninhos são colocados e a dificuldade de acesso a eles. Diferentemente de outras regiões, em que o manejo é realizado nas praias de areia na margem dos rios, na região do Oiapoque o manejo é realizado nas regiões de campos alagados e ilhas, sendo que algumas vezes as tracajás chegam a percorrer mais de 1km de terra firme para colocar os ovos.

 

Especificidade do manejo em campos alagados nas Terras Indígenas do Oiapoque, cacique Adailson dos Santos Narciso e Coaracy Gabriel (FUNAI). Foto: Claudiane Ramos, 2019.

Além da predação dos animais e do crescimento da população indígena local, aumentando também a pressão sobre essa espécie, outras duas ameaças que tem sido observadas pelos Agentes Ambientais Indígenas são: a mudança no regime das chuvas e, assim, do nível da água nas estações secas e chuvosas, dificultando o acesso a locais de desova anteriormente usados por esses animais; e também as queimadas dos campos, que muitas vezes acabam atingindo as tracajás durante a desova.

Foto 1: Incubadora na Aldeia Karibuen com o cacique Adailson dos Santos Narciso. Foto 2: Incubadora com 11 ninhos na Aldeia Kumarumã, com o AGAMIN Egson Monteiro. Rita Lewkowicz, 2019

Durante os dois dias de trabalho foram coletados 11 ninhos de tracajá, que posteriormente foram transplantados para as incubadoras na Aldeia Kumarumã e na Aldeia Karibuen. Até o momento, na região do Rio Uaçá já foram coletados mais de 800 ovos. Ainda que o resultado seja positivo, os Agentes Ambientais Indígenas avaliam que precisam de maior apoio comunitário no trabalho e do fortalecimento dos acordos internos de gestão socioambiental para que o manejo seja mais efetivo.

Assista ao vídeo sobre essa etapa de coleta dos ovos de tracajás, parte do manejo de quelônios realizado pelos Agentes Ambientais Indígenas (AGAMIN) nas Terras Indígenas do Oiapoque: 

Participantes: Adailson dos Santos Narciso, Evandinho Narciso, Sidelvan Monteiro, Vanderson Iaparrá, Egson Clarindo, Caviano Forte, Rivaldo Forte, Manoel Severino dos Santos, Dieldo dos Santos (Agentes Ambientais Indígenas), Marcelo dos Santos, Anderson Narciso, Ronielson Narciso (jovens indígenas Galibi Marworno), Haroldo dos Santos Vilhena, Coaracy Gabriel (FUNAI), Claudiane Menezes e Vinicius Benvegnu (UNIFAP), Oscar Gislael, Nayara Paiva e Maelen dos Santos (SEMMAM) e Rita Lewkowicz (Iepé).

 

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