Quilombo do Maruanum recebe intercâmbio entre representantes indígenas e quilombolas no Amapá

No dia 26 de março de 2019, na sede da Vila do Carmo, no Quilombo do Maruanum, ocorreu um intercâmbio entre representantes indígenas e quilombolas do Amapá. O evento ocorreu por iniciativa do Núcleo de Mudanças Climáticas da Secretaria de Meio Ambiente do Amapá e da Força Tarefa dos Governadores pelo Clima e Floresta (GCF), com apoio do Iepé e da Rede de Cooperação Amazônica (RCA), na semana em que Macapá sediou o 17 Fórum dos Governadores da Amazônia Legal. Mais de 30 participantes estiveram envolvidos em várias atividades realizadas ao longo do dia, que contou discussões sobre a situação dos territórios indígenas e quilombolas no Estado, apresentações culturais e rodas de conversa.

Participaram do intercâmbio lideranças indígenas do Amapá e Norte do Pará (Viseni Wajãpi, Kurikuri Waiãpi, Merlane Mikuré Tuwimpó Tiriyó, Cecília Awaeko Apalai, Mitore Cristiana Tiriyó Kaxuyana, Gilberto Iaparrá e Silvia Vidal Almeida) e representantes quilombolas, que vivem nas comunidades de Vila do Carmo e Santa Luzia (os líderes e fundadores, Matias Pereira Gomes e João Pereira da Silva; Janete da Silva Costa, Adézio Amorim Lemos, Marielle Moraes dos Santos, Maria José Moura Serra, Kleber Rodrigues dos Santos, Carmosina Pereira da Costa, Castorina Silva da Silva, Raimunda Costa da Silva, Gilson Lopes da Costa e Matias Pereira Gomes). O intercâmbio contou, ainda, com a participação de Colleen Scanlan-Lyons (GCF) e Alexis M. Arthur (PNUD), membros do corpo técnico da SEMA/AP e do Instituto Estadual de Florestas do Amapá – IEF/AP (Mariane Nardi, Regina Carvalho e Jaqueline Homobono); da Comissão Pró-indío do Acre (Estevão Ribeiro) e do Iepé (Renata Cunha e Evandro Bernardi)

A abertura da mesa ocorreu na Escola Estadual Professor Raimundo Pereira da Silva, e foi realizada por José Pereira, liderança quilombola e principal articulador da comunidade com o governo do Estado. Compuseram a mesa Colleen Scanlan-Lyons, Renata Cunha, Regina Carvalho, Viseni Wajãpi, Cecília Awaeko Apalai, Gilberto Iaparrá, Matias Pereira Gomes, anteriormente já citados, e também, Adezio Lemos, presidente da Associação Quilombola do Carmo do Maruanum.

Na ocasião, José Pereira, aproveitou para entregar oficialmente a Colleen Scanlan-Lyons, documento elaborado pela Associação Quilombola do Carmo do Maruanum pontuando as principais atividades conduzidas pela comunidade e quais são as atuais demandas que as mesmas apresentam, mostrando o interesse de dialogar tanto com os membros do Estado presentes, como também, de buscar fortalecer e articular outras relações de parceria.

Matias Pereira Gomes, um dos membros mais antigos da associação, fez a fala de abertura, recebendo-o todos com muita satisfação. Ressaltou que a construção de espaços como esse infelizmente não ocorre com a frequência histórica que deveria, isolando as comunidades quilombolas tanto do poder público, como também, de outros espaços e movimentos sociais. Reforçou que a comunidade quilombola anseia por construir e fortificar essas pontes, buscando ações conjuntas sempre estando aberta ao diálogo, mas que penam muito pela falta de visibilidade e de políticas públicas voltadas aos seus territórios. Para ele, é muito importante receber lideranças tão ativas na busca pelos direitos de sua gente, pois é uma luta comumente vivenciada pelos quilombolas. Adezio Lemos, complementou dizendo que é a primeira vez que um encontro como esse, tão diverso, é realizado oficialmente dentro de uma área quilombola, apesar das relações entre quilombolas e indígenas já estarem estabelecidas em diferentes níveis ao longo do Estado.

Em seguida, os demais membros da mesa puderam se apresentar, informando cada um, sua região de origem, associações e organizações que os representavam no momento, e manifestando a importância de estarem participando do intercâmbio. Foram citadas o Conselho das Aldeias Wajãpi – APINA, a Articulação e Organização dos Povos Indígenas do Amapá e Norte do Pará – APOIANP, a Associação dos Povos Indígenas Tiriyó, Kaxuyana, Txikuyana – APITIKATXI, a Associação dos Povos Indígenas Wayana e Aparai – APIWA e o Conselho de Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque – CCPIO.

Após o encerramento das falas o grupo de marabaixo Santa Luzia do Maruanum II apresentou-se aos presentes, puxando uma roda de dança. Em seguida, os representantes indígenas também dançaram e cantaram conforme seus costumes, conduzidos pelo cacique Gilberto Iaparrá.

Durante a tarde, ao longo da margem do rio Maruanum, o grupo se reuniu para a roda de conversa com o principal objetivo de criar um espaço de diálogo e escuta, trazendo uma vivência mais próxima à realidade cotidianamente enfrentada pelas comunidades e povos tradicionais frente às mudanças do clima, cultura, modo de vida e uso da floresta.

Seu Matias Gomes, abriu o caminho de diálogo contando um pouco da história da formação do Quilombo do Maruanum ao longo do rio, que recebe o nome de um casal de “nossos irmãos índios” que segundo ele habitavam anteriormente a região, de nomes Maru e Anum. Conta como o fluxo das águas já mudou desde aquele tempo para cá, e como a vida do quilombo também foi se desenvolvendo por conta do consumo do pescado – antes mais abundante, do fluxo das águas que os transportavam e mantinha a saúde da vila.

Dentre os pontos comuns levantados estão o fortalecimento da educação rural e diferenciada junto à uma melhoria da rede e infraestrutura; a migração da juventude para os grandes centros urbanos; a municipalização da saúde e ausência de agentes nos territórios; o isolamento geográfico e as péssimas condições das vias públicas nos interiores; a falta de escoamento de produtos da sociobiodiversidade; a mudança no regime das chuvas e o avanço do assoreamento dos rios e outros cursos d’agua, frente ao aumento desse volume; a violência no campo e o preconceito racial; percepções de alteração nos cultivos tradicionais pelo aumento de pragas; alteração no regime fluvial e do abastecimento do pescado, dentre outros. Também houve menções a respeito da demarcação, titularidade e regularização fundiária, e, como a política adotada pelo governo federal impacta/pode impactar a soberania destes povos sob seus territórios.

Marielle Santos e Matias Gomes, pontuaram em suas falas como os quilombolas estão isolados na pauta de reconhecimento, regularização e titulação de suas terras perante o poder público, e como também é complexo o entendimento dos próprios quilombolas como parte de um todo, de um grupo maior e com unidade. Muitos, por não verem como continuar sobrevivendo em seu território, e por sofrerem constantes ameaças vindas tanto do poder público, como de agentes externos – das mais variadas, como assaltos, grilagem, invasões etc – não tendo licenças para produzir e desenvolver agricultura, somada às dificuldades de acesso, veem como a única possibilidade quando de fato conseguem os títulos de suas terras, a venda dos lotes para migrar para a cidade.

Gilberto Iaparrá, ressaltou como é positivo o espaço de intercâmbio, exatamente por ver muitas similaridades nos principais desafios, principalmente quanto ao acesso a comunicação, educação, saúde e infraestrutura. Diz inclusive, que o grande desafio tem sido manter os jovens nas aldeias pois, ao se mudarem para a cidade, encontram estes elementos que os proporcionam um outro modo de viver, se distanciando de suas origens e sua cultura. Pontuou que o olhar do poder público de forma diferenciada é crucial nesta questão. Sugere que os indígenas e quilombolas passem a se organizar, para que levem as entidades públicas competentes demandas e propostas para a melhoria da vida em seus territórios.

Viseni Wajãpi, trouxe para o debate o entendimento que os Wajãpi têm da própria maneira de se relacionar com o seu território. Disse que para eles, manter a floresta em pé significa ter acesso a boa saúde e educação, também, garantir uma boa formação dos professores, dos agentes socioambientais Wajãpi e dos técnicos de enfermagem indígenas. “É isso que sempre os Wajãpi lutaram, para poder continuar bem vivendo em seus territórios”. Comenta que as parcerias são importantes, e que os recursos veem para dar apoio, mas vem com um propósito que não pode ser esquecido: o de fortalecer a cultura, e o modo de vida dos povos, para que estes consigam permanecer e viver em seus territórios. Viseni falou, ainda, que o diálogo com o poder público junto aos parceiros é essencial, e que todos devem se reunir em busca de apoio, especialmente porque a manutenção das florestas não é importante apenas para aqueles que vivem com ela, mas para aqueles que dependem dela indiretamente também.

 

 

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