Uma festa kahyana às margens do rio Kahu

Na aldeia Kaspakuru, no rio Trombetas (o Rio Kahu, de onde vem o nome Kahyana), este povo celebrou por quatro dias o seu modo de vida e reivindicou a demarcação de seu território tradicional

Em uma dia de céu azul e ensolarado na região norte do Pará, duas voadeiras cortavam as águas do Trombetas levando os Kahyana e seus parentes Katxuyana, Txikiyana, Tiriyó, Yaskuriyana, dentre outros tantos yanas que vivem de longa data na região, que, reunidos, cantavam animadamente, com seus maracás, celebrando a sua estreita e antiga relação com este rio, para eles chamado Kahu. O som das flautas masculinas Katamu, parecido com o de um berrante, anunciava a chegada, à aldeia Kaspakuru, de homens e mulheres, velhos, adultos e crianças vindos da aldeia Purho Mïtï, lindamente enfeitados com pinturas corporais, vestimentas e adereços festivos , para uma grande festa dedicada à força de sua cultura, e de sua conexão com este território, habitado por seus antepassados há incontáveis gerações. Mal as voadeiras atracaram, os dois grupos se uniram em cantos e danças que se prolongaram por horas e dias seguidos. Assim teve início a festa Kahyana, principal celebração do primeiro Encontro Kahyana, que reuniu, entre os dias 4 e 7 de julho, nas aldeias kahyana do médio rio Trombetas, cerca de 70 representantes deste e demais povos aparentados, para celebrar o seu modo de vida e reivindicar a demarcação de seu território tradicional.

Gente do rio Trombetas

Os Kahyana habitam, desde tempos imemoriais, a bacia do médio rio Trombetas, entre os rios Velho e Kaspakuru, no norte do estado do Pará. A sua relação com o seu território tradicional é tão intrínseca que se manifesta inclusive em seu nome, que na língua kahyana, da família linguística Karib, significa “gente (yana) do rio Trombetas (Kahu)”. Não à toa, há mais de meio século os Kahyana lutam para viver do seu jeito, no seu território, enfrentando inúmeras adversidades e violações de direitos.

“Por interferência externa, tanto de missionários, quanto da ditadura, meu povo foi arrancado dessa terra em 1968, mas sempre quiseram retornar”, explica Ângela Kahyana, liderança indígena da Associação dos Povos Indígenas Katxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK) e da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), em referência ao período no qual, fragilizado por epidemias levadas pelas frentes de colonização, que acarretaram em graves perdas demográficas, a única alternativa que encontraram foi ceder às pressões para que migrassem, parte para as aldeias-missões evangélicas no sul da Guiana e do Suriname, parte para a aldeia-missão Kassawá, no rio Nhamundá, e outros para a missão Tiriyó, de missionário franciscanos, no Parque do Tumucumaque, para onde foram removidos em aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB).

Mesmo durante essa ausência forçada e temporária de seu território, os Kahyana jamais deixaram de prezar pela manutenção do seu jeito de ser “gente do rio Trombetas”, nem de manter uma relação estreita com aqueles outros grupos indígenas que permaneceram ocupando área, ou de alimentar o sonho de voltar a morar em seu local de origem, onde, com muito sofrimento, haviam deixado suas aldeias, roças, cemitérios, espíritos, e também parentes que optaram pelo isolamento para permanecer na região, escondendo-se em lugares onde até hoje não se deixam encontrar.

Desde o final da década de 1990, os Kahyana, juntamente com seus demais parentes descendentes de outros yanas (Katxuyana, Txikiyana, Ingarïnyana e outros) conseguiram realizar este sonho e regressaram à sua área de habitação tradicional, com a qual sempre estiveram conectados, e onde hoje se dividem em três aldeias nas margens do Kahu: Kaspakuru, Araçá e Purho Mïtï. O direito de viver em seu território, no entanto, continua ameaçado, já que a Terra Indígena (TI) Katxuyana-Tunayana, que engloba a área onde vivem os Kahyana, ainda aguarda a demarcação, mesmo tendo seu Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação assinado pela Funai em 2015 – os próximos passos são a declaração dos limites da TI pelo Ministério da Justiça, e sua homologação pela Presidência da República.

Encontro Kahyana: celebração da cultura e luta pelo território

Foi para celebrar essa intensa relação com o Kahu, seu rio de origem, e reivindicar o direto de terem seu território tradicional demarcado, que os Kahyana se reuniram na aldeia Kaspakuru, e, por quatro dias, festejaram com grande entusiasmo o fato de serem “gente do rio Trombetas”. O Encontro Kahyana foi marcado por muitas danças, cantos, e memórias do passado, que comprovaram a força da conexão deste povo com sua área de habitação tradicional.

Abundância

Como de costume entre os ameríndios, os Kahyana dedicaram semanas de trabalho aos preparativos do encontro, tudo para garantir a fartura de alimentos e bebidas, e a confecção das vestimentas e adereços de festa.
Nas cozinhas das aldeias, sentadas em pequenos tocos de madeira, as mulheres conversavam animadamente enquanto descascavam inúmeras cestas de cará, amarelo e roxo, colhidos nas roças, para transformá-los em saborosas bebidas fermentadas, mingaus e sucos, além do preparo do tubérculo cozido, que, servido no café da manhã, ou nos lanches entre as refeições, aplacava a fome dos convidados e anfitriões do encontro.


Já os homens, como sempre acontece nas festas deste povo, se ocuparam da caçada e da pescaria. Um grupo passou cerca de cinco dias no mato, retornando com uma grande quantidade de carne moqueada. Os pescadores não foram menos exitosos, trazendo bacias e mais bacias de peixes, também assados no moquém. Servidos com muito caldo, farinha de mandioca e beiju, as caças e peixes proporcionaram verdadeiros banquetes nos dias de celebração.

Os adereços e vestimentas de festa também foram caprichosamente preparados nos dias que antecederam o encontro. Reunidas na casa comunal, tamiriki, espaço central da aldeia, onde acontecem as festas, cantos e reuniões, diferentes gerações confeccionaram os adereços típicos dos Kahyana para os momentos de celebração. Na aldeia Purho Mïtï, uma tarde inteira foi dedicada ao preparo das vestimentas masculina de folha de buriti, chamadas kua, atividade na qual mesmo os mais jovens demonstraram enorme habilidade.

A Festa

Era perto do meio dia da quarta-feira quando o som dos motores de voadeiras ainda distantes chamou a atenção em Kaspakuru. Depois de uma manhã de pouca movimentação por causa da chuva, as pessoas se agitaram, e correram para o porto da aldeia, às margens do Trombetas. “Os caçadores e pescadores estão chegando!”, exclamavam. Logo atracaram duas voadeiras trazendo de volta os homens que há dias estavam no mato, e um grupo de mulheres que carregavam em jamaxins – um tipo de cesto levado nas costas, cujas alças são presas na testa – as caças conquistadas neste período.

 

Enfileirados, de um lado os caçadores, do outro as mulheres, o grupo subiu até a casa comunal, que fica na parte mais alta da aldeia. As mulheres, então, depositaram as caças em cima de uma mesa, evidenciando a fartura de comida proporcionada pelo árduo trabalho dos homens, que, ainda do lado de fora, cantavam e dançavam. “Essa é a entrega das caças, no dia anterior à festa, como sempre acontece nas celebrações kahyana”, explicou Juventino Katxuyana, presidente da AIKATUK.

Com o chão ainda enlameado pela chuva da manhã, os caçadores iniciaram uma luta tradicional, chamada Kahaha Katohu, cujo objetivo é levar os adversários ao chão, e demonstrar a resistência ao não se deixar derrubar. Após algumas quedas, e muitas risadas, os caçadores se juntaram às mulheres dentro da tamiriki, onde foram recompensados pelos dias de esforço na mata com cuias de diversos tipos bebidas fermentadas de cará e de cana, chamadas Kewkew, Ihunu, Naho-youkuru, Pari-youkuru e Parante- youkuru . Depois dessa “atração”, o sossego voltou a reinar. Era preciso guardar energias para o início mesmo da festa, no dia seguinte.

O escuro ainda escondia o rio Trombetas quando, reunidos na casa comunal, alguns homens começaram a cantar. Foi assim em todos os dias desse encontro festivo, mas na madrugada da quinta-feira, os cantos tinham mais força: anunciavam a chegada da tão aguardada festa.

Durante toda a manhã, com muito capricho, os Kahyana enfeitaram seus corpos com suas pinturas, adereços e vestimentas de festa, sempre com o acompanhamento dos cantos e dos maracás. As cores vibrantes dos fartos colares e dos mïnenoho – saias frontais – de miçanga usados pelas mulheres saltavam aos olhos. Os homens, no entanto, não ficaram para trás, ostentando, por baixo da vestimenta de folha de buriti, lindos cintos de miçanga, chamados okunumu, de variados e complexos motivos e imponentes colares de miçanga e maramara.

Na aldeia Purho Mïtï, os cantos e danças para celebrar a conexão com o território começaram antes da partida para a aldeia Kaspakuru. Na primeira aldeia, esquentando o corpo para a grande festa, diferentes gerações kahyana fizeram uma “dança de saída” enquanto se encaminhavam para as voadeiras que os levariam ao encontro de seus parentes, que os aguardavam na segunda aldeia. E durante todo o trajeto nas águas do Kahu cantaram na companhia dos maracás. Neste percurso, e em todos os outros realizados durante os preparativos, Manuel e Mario – irmãos que estavam entre os Kahyana transferidos para a Missão Tiriyó, e voltavam pela primeira vez, após cinquenta anos, ao local onde nasceram e passaram os primeiros anos de vida – apontaram muito saudosos, para as novas gerações, os locais das aldeias onde viviam quando pequenos, das roças cuidadas por suas mães e avós, e cemitérios onde estão enterrados seus antepassados.

Longe de evocarem tristeza, essas memórias vinham reforçar o sentimento de pertencimento deste povo ao seu território, e provocavam contundentes questionamentos acerca da demora no processo de demarcação da TI. “Eu nasci aqui, minha mãe nasceu aqui, minha avó nasceu aqui. Por que não reconhecem o nosso direito a ter essa terra demarcada?”, perguntava uma senhora.

O grupo kahyana de Kaspakuru, que esperava os seus parentes no porto da aldeia, ouviu de longe o som das flautas masculinas, indicando que as voadeiras se aproximavam, e logo também começou a cantar e a dançar. Ao se encontrarem, os dois grupos vibraram de alegria, e intensificaram os cantos. A partir deste momento, seguiram-se horas ininterruptas de danças no pátio da aldeia ao som dos cantos, maracás, e das flautas masculina e feminina – esta chamada Se’se, de som mais agudo. Mesmo sob o sol escaldante, não diminuía em nada o vigor dos mais velhos, responsáveis por puxar os cantos e conduzir as danças, que se estenderam até o anoitecer, e novamente na madrugada, até o amanhecer.

A força deste povo para lutar pelo seu território ficou explícita no entusiasmo e na alegria mostrados por todas as gerações presentes, das crianças aos mais velhos, nos cantos e danças que se repetiram por mais algumas horas na noite de sexta-feira, e na madrugada de sábado. Em diversos momentos, aos cantos tradicionais se mesclavam gritos por “Demarcação, Já!” lembrando que, apesar da felicidade de viver em sua terra tradicional, os Kahyana ainda não têm esse direito garantido.

 

“Precisamos da nossa terra demarcada porque a população kahyana está aumentando, e muito. Só com a demarcação teremos a garantia de uma serie de direitos, como acesso à saúde e educação diferenciadas”, afirmou Simão Kahyana, cacique da aldeia Kaspakuru. Mais um capítulo exemplar da saga deste povo para viver em seu território tradicional, o Encontro Kahyana deixou uma mensagem clara: eles não vão desistir da luta até terem a terra de seus ancestrais demarcada e garantida para a atual e futuras gerações.

 

 

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