Iepé realiza 8° módulo do curso de formação de agentes socioambientais wajãpi e acompanhamento de seus experimentos de plantio

Além de trocarem experiências, os agentes discutiram sobre as principais ameaças aos seus direitos territoriais e aprenderem novas técnicas de manejo sustentável

O acompanhamento das atividades de campo dos ASA ocorreu na região da aldeia Kurumuripopy

Dando continuidade ao processo de formação de Agentes Socioambientais wajãpi (ASA), iniciado em 2015, o Iepé realizou, entre o final de abril e o início de maio, mais uma etapa de acompanhamento das atividades de campo dos cursistas, e, em seguida, o oitavo módulo do curso de formação dos agentes socioambientais. Neste módulo, foram discutidos o histórico e a atualidade do processo de colonização afetando os povos indígenas, a organização política do Estado brasileiro e o andamento dos experimentos de plantio que vêm sendo implementados pelos ASA desde julho de 2017. O acompanhamento foi realizado entre os dias 23 e 29 de abril na região da aldeia Kurumuripopy, Terra Indígena (TI) Wajãpi, com um grupo de 9 agentes socioambientais, e o curso aconteceu entre os dias 30 de abril e 12 de maio no Centro de Formação e Documentação Wajãpi, localizado na mesma TI.

Experimentos de manejo florestal

O acompanhamento das atividades dos ASA, realizado pelo antropólogo Igor Scaramuzzi em abril deu continuidade a uma série de acompanhamentos já realizados ao longo de 2017 e 2018, reunindo cursistas de diversas aldeias com o objetivo de possibilitar discussões, trocas de experiências e comparações entre os experimentos de plantio de espécies florestais em roças e capoeiras desenvolvidos pelos alunos do curso de formação, bem como a elaboração conjunta de planejamentos para os próximos plantios. Além das visitas aos experimentos dos agentes que vivem na região da aldeia Kurumuripopy e da sistematização das informações compartilhadas por meio de mapas, desenhos e anotações, foram feitas entrevistas sobre a diversidade das roças visitadas e conversas com as famílias sobre o trabalho dos ASA e sobre o Plano de Gestão Socioambiental da TI Wajãpi. As atividades de acompanhamento também visaram subsidiar as discussões que iriam acontecer no oitavo módulo do curso de formação dos agentes.

 

Cursistas de diversas aldeias se encontraram para trocar experiências sobre os seus experimentos de plantio

 

Modelos de desenvolvimento e continuidade da colonização

A primeira semana do curso de formação foi dedicada ao objetivo de revisitar a história da colonização no Brasil e apontar a continuidade desse processo na região amazônica, proposta da terceira etapa da disciplina Modelos de Desenvolvimento e Terras Indígenas, ministrada por Igor Scaramuzzi. Nesse sentido, foram analisados os projetos do Legislativo que ameaçam os direitos indígenas atualmente, com ênfase na Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215 – que transfere a prerrogativa de demarcação de Terras Indígenas do Executivo para o Legislativo e proíbe a ampliação de terras já delimitadas – e no Projeto de Lei (PL) 1610/1996 – que libera a mineração em territórios indígenas. Houve, ainda, a exibição e uma discussão sobre o documentário “Martírio”, que relata exatamente a continuidade do processo de colonização e de violência, motivados pelos interesses ruralistas, contra os Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul.

Por uma demanda dos ASA, com a proximidade das eleições e o crescente assédio de políticos aos Wajãpi, foram discutidas, também, a estrutura política do país, as atribuições dos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo e a relação das bancadas ruralista e evangélica com as ameaças aos direitos indígenas. Para isso, foram realizadas leituras de textos e apresentação de vídeos com falas de políticos ruralistas.

Práticas de manejo sustentável, diversidade de plantio e soberania alimentar

Na segunda semana do curso, o biólogo Adriano Dionet, ministrou, com o apoio de Igor Scaramuzzi, a disciplina Práticas de Manejo Sustentável. O principal objetivo foi discutir o andamento dos experimentos de espécies florestais que vêm sendo realizados pelos ASA desde julho de 2017 para tentar minimizar os problemas enfrentados pelos Wajãpi com a redução de bons lugares para fazer roça, principalmente em decorrência da sedentarização. Embora os experimentos tenham sido propostos com o objetivo de acelerar a recuperação florestal em áreas utilizadas para o plantio de roças, ao iniciarem a produção de mudas, os ASA ampliaram esses objetivos, escolhendo espécies que propiciam a produção de frutas para o consumo das famílias e para a merenda escolar, de mel, remédios e de alimentos para as caças, entre outros aspectos.

  Os ASA já produziram mais de mil mudas, de 41 espécies, que devem ser plantadas ainda neste semestre

Como explica o agente socioambiental Rosenã: “Queremos ajudar a capoeira a virar floresta mais rápido. Queremos também ter diversidade de frutas para o nosso consumo, porque ter saúde é ter diversidade de comida dentro da nossa aldeia, vamos consumir mais frutas e mais produtos da roça e depender menos da comida dos karai kõ (não-indígenas). Também podemos usar essas frutas para a merenda escolar. Sabemos que os lugares que derrubamos para fazer as roças eram territórios de caça. Quando derrubamos, elas fogem. Por isso, vamos plantar espécies que as caças gostam de comer, para que elas possam voltar”.

Além do levantamento dos objetivos e da elaboração de uma ficha que sistematizasse cada um desses experimentos, foram feitas visitas aos experimentos próximos ao Centro de Formação e Documentação Wajãpi – dos ASA Pauri, Nazaré e Marãte – onde Adriano pôde ensinar novas técnicas aos agentes socioambientais – como a poda de árvores e a adubagem – e aprimorar os conhecimentos dos agentes em técnicas para a produção de mudas e para espalhar sementes. Foi também feito um plantio coletivo de mudas de diferentes tipos de árvores em uma nova capoeira, próxima à aldeia Kwapo’ywyry.

Houve, por fim, uma discussão sobre os lugares para plantar essas mudas, de acordo com o levantamento das espécies e das qualidades de cada etapa do ciclo roça-floresta. Ficou acordado que alguns ASA irão plantar em koopyau (roça nova) outros em kokwerã pyau (capoeira nova) outros ainda em isawapa (último estágio da capoeira), visando também a possibilidade de comparação entre os experimentos. As técnicas de poda e de adubagem devem ajudar as mudas a se desenvolverem mais rápido.

Neste módulo, os ASA aprenderam novas técnicas como a poda de árvores, a adubagem e aprimoraram suas técnicas para a produção de mudas e para espalhar sementes

O curso de formação dos agentes socioambientais wajãpi vem sendo realizado pelo Iepé em parceria com a TNC, no âmbito do projeto “Fortalecimento da Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas na Amazônia como estratégia do controle do desmatamento e da promoção do bem-estar das comunidades indígenas”, apoiado pelo Fundo Amazônia (BNDES).

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