Formação Indígena em Gestão Ambiental e Territorial no lado Oeste do Tumucumaque

_mg_1338Entre os dias 10 a 15 de outubro de 2016, 24 jovens dos povos Tiriyó, Katxuyana, Kahyana, Txikiyana, Okomoyana, dentre outros, representantes de 19 aldeias da Terra Indígena Parque do Tumucumaque/Oeste, participaram do I Módulo de Formação em Gestão Ambiental e Territorial, na aldeia Missão Tiriyó.

Estavam presentes Ubirajara Ke’su, presidente da Apitikatxi – Associação dos Povos Indígenas Tiriyó, Katxuyana e Txikuyana, e Ângela Kaxuyana, da Aikatuk – Associação dos Povos Indígenas Katxuyana, Tunayana e Kahuyana.

Com o objetivo de mobilizar, informar e adicionar sugestões à proposta de formação e capacitação em GATI (gestão Territorial e Ambiental), foi apresentado todo o processo que culminou na elaboração do PGTA da região. Para isso, trabalhou-se no reavivamento da memória dos trabalhos do Iepé na região desde 2007, em um longo processo que resultou no PGTA ora sendo implementado, com apoio do BNDES/Fundo Amazônia.

Durante os dias, muito se discorreu sobre gestão territorial. Atentos à gestão praticada pelos mais velhos, os jovens reexaminam, com auxílio de outras lideranças, as dinâmicas atuais e os efeitos das mudanças ocorridas, incluindo os limites territoriais impostos pela demarcação de sua TI. Angela Kaxuyana refletiu em sua fala:

Qual a diferença da gestão dos mais antigos para a que temos hoje? Desde aquele tempo os velhos faziam gestão. Vocês já perguntaram para os mais velhos como eles faziam a gestão? Já perguntaram para os velhos porque mudavam de aldeia? Para fazer a gestão do território, pois faziam as roças, e depois queriam deixar a terra descansar. Essa é uma forma de fazer gestão para não saturar a terra. Porque as futuras gerações poderão usar. O modelo de vivência era com a preocupação da gestão do território. E hoje? O karaiwa passou uma régua e definiu a delimitação da nossa terra. Agora é somar o conhecimento nosso com o do karaiwa, para que na futura geração se possa ter a terra com qualidade. Hoje, estamos dentro de um quadrado e temos que encontrar outros mecanismos para gestão.

Durante o encontro Ubirajara e Angela Katxuyana rememoraram que a Terra Indígena Parque do Tumucumaque foi demarcada em 1997, e que esse transcurso realizou-se a partir de muitas lutas para conquista desse território. Ubirajara expressa aos jovens:

Um dia, vocês que vão assumir. Por isso, foram os escolhidos para fazer esse curso. Tem que preparar para o futuro.

E Ângela Kaxuyana complementa:

A luta dos nossos avós foi muito importante. É importante cada um retomar esse histórico. Para pensar em proteger uma terra, para pensar em proteger um território, é preciso saber que nenhuma terra no Brasil foi dada pelo governo, e sim foram conquistadas pela luta do povo. Esse ano, essa terra faz 20 anos de demarcação.

Ela complementa que após essa luta da demarcação, veio a formação de agentes, também uma conquista do movimento indígena:

Não pode fazer gestão igual a do passado. Agora tem limites que nos foram impostos. Agora tem que começar a conversar com o povo sobre gestão. O que também é uma conquista dos povos indígenas. É a partir dessa luta que surge a PNGATI. (Ângela Kaxuyana).

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Iniciativa de Manejo nas aldeias

Em um dos dias do encontro, o cacique Davi Kaxuyana, apresentou para os jovens a experiência que estão propagando em 4 aldeias katxuyana: Tuhaentu, Orokofa Velha, Orokofa Nova e Taratarafë (distantes cerca de uma hora e meia da aldeia Missão Tiriyó). Em sua apresentação, o cacique instigou os jovens à importância da formação em GATI, e trouxe a eles espécies de mandioca que destinou àqueles que ainda não tinham tais variedades. Abordou sobre o manejo do fogo, em que se pratica o aceiro, deixando a terra “descansar” por cerca de 4 anos, com o propósito de conduzir as roças para mais próximo das aldeias. De natureza igual, as 4 aldeias reservaram uma área coletiva de plantio de babaçu, com o desígnio de manter e estocar a palha que precisam para construção das casas, pois perceberam que estava cada vez mais distantes e escassas. Ângela Kaxuyana comenta com os jovens sobre a experiência:

As quatro aldeias conseguiram aderir. Estou encantada. É um resgate da história do meu povo, e é um desafio muito grande. Os jovens tem muita resistência em manter a nossa cultura. São essas diferenças e esses valores que fazem eu ser katxuyana e você ser tiriyó: vem desde a culinária até o tipo da alimentação. […] Todos que morampor aqui, principalmente na Missão, vão muito distante para caçar, fazer roça e pescar. Então, é aproveitar a esse curso, para ver na prática. (Ângela Katxuyana).

Durante o encontro, os participantes visitaram e trocaram experiências em três roças dos jovens que estavam presentes.

Para compreensão dos serviços ecossistêmicos e modelagem participativa integrada, os assessores Iuri Amazonas (Procam/USP) e Vitor Zanetti (ITA), discorreram sobre as temáticas, expondo os conceitos e interagindo com imagens. Os jovens desenharam o dia-a-dia em suas aldeias. Os desenhos demonstraram a diversidade de atividades e afazeres dos jovens, bem como a sua interação com o território e ambiente em que vivem.

Este módulo foi conduzido por Iuri Tavares Amazonas (Procam/USP), Vitor Zanetti (ITA), Davi Maruwono (documentarista indígena), e membros da equipe do Programa Tumucumaque (Evandro Bernardi, Osvaldo Souza, Rosamaria Loures e Jeciane Souza), com a colaboração e acompanhamento de Angela Kaxuyana (Aikatuk) e Ubirajara Ke’su (Apitikatxi).
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