Apina, Awatac e Iepé realizam o I Encontro de Jovens Wajãpi

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O I Encontro de Jovens Wajãpi, Konumiokyrera amõ kõjamuku kyrera kõ jimoatya, ocorreu entre 07 e 10 de julho de 2016 no Centro de Formação e Documentação Wajãpi – Terra Indígena Wajãpi, com a participação de 51 rapazes e moças de diversas aldeias, incluindo um pequeno grupo que mora e estuda na cidade de Macapá. Foram convidados a participar jovens na faixa etária de 14 a 20 anos de idade.  O Encontro foi promovido pelo Conselho das Aldeias Wajãpi – Apina, em parceria com o Iepé e a Associação Wajãpi Terra, Ambiente e Cultura (Awatac), tendo como objetivo principal a construção de um plano de trabalho para fomentar a participação dos jovens nas discussões sobre o fortalecimento dos modos de vida wajãpi e nas atividades voltadas à articulação política, à valorização cultural e à gestão socioambiental da T. I. Wajãpi. A mobilização dos jovens foi iniciada em resposta a uma demanda dos chefes e outras lideranças, preocupados com um crescente distanciamento entre as gerações e com sinais de desinteresse dos mais jovens em relação a conhecimentos e práticas dos Wajãpi.

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Buscando em primeiro lugar ouvir os próprios jovens, o Encontro foi organizado em torno de três eixos de questões: a) saberes, práticas e aspirações dos jovens; b) seus conhecimentos sobre os trabalhos desenvolvidos pelas organizações e agentes comunitários wajãpi; c) propostas para fomentar a participação dos jovens. A discussão foi realizada através de grupos de trabalho orientados e mediados pelos membros das diretorias do Apina e da Awatac, seguidos de plenárias para apresentação dos resultados.

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No primeiro dia de trabalho, voltado à escuta dos jovens Wajãpi, foram levantadas questões sobre seu dia a dia, gostos, interesses, preocupações, dificuldades e ideias sobre o futuro, individual e coletivo. Através de seus relatos foram percebidas algumas diferenças significativas entre os grupos de moças e rapazes, que refletem as formas de organização e os modos próprios de ser Wajãpi. Também foi possível notar diferenças entre os jovens que vivem na cidade e aqueles que permanecem em suas aldeias. Entre os pontos de interesse geral, destacou-se a preocupação com a valorização e o fortalecimento das práticas e saberes wajãpi, em paralelo ao desejo/expectativa de formações que possibilitem o acesso a elementos externos, como o uso de equipamentos tecnológicos, conhecimentos sobre legislação e direitos indígenas, maior fluência na língua portuguesa e o exercício de um trabalho assalariado. A busca por uma escolarização formal também apareceu como uma preocupação de todos jovens, ocupando lugar central na fala daqueles que residem fora da T. I. Wajãpi.

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Os trabalhos coletivos voltados ao fortalecimento político dos Wajãpi, à valorização de seus modos de vida e à gestão sustentável da T. I. Wajãpi foram abordados no segundo dia do Encontro. Depois da apresentação em plenária do resultado das discussões em grupo, na qual se evidenciou o pouco conhecimento dos jovens sobre o trabalho desenvolvido pelas organizações e agentes comunitários, os coordenadores do evento apresentaram aos jovens como se estruturaram e funcionam as organizações indígenas, de modo geral, e as organizações wajãpi – Apina, Awatac e Apiwata – em particular. Apresentaram também, resumidamente, alguns instrumentos políticos e documentos elaborados pelos Wajãpi após a demarcação de sua terra, para garantir o respeito aos seus direitos e modos próprios de viver e dar diretrizes ao trabalho dos órgãos governamentais, como o Plano de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Wajãpi, o Plano de Ação Mosikoa’y rã kõ, o Protocolo de Consulta e Consentimento Wajãpi (Wajãpi kõ omõsãtamy wayvu oposikoa romõ ma’e)  e, mais recentemente, o Plano de Gestão Socioambiental da Terra Indígena Wajãpi.

Nos últimos dias foi proposto um levantamento de atividades de interesse para subsidiar a elaboração de um plano de trabalho voltado aos jovens Wajãpi. Após as conversas em grupo os jovens apresentaram seus relatos que, em plenária, foram organizados, traduzidos para o português e pactuados entre eles numa lista geral de temas de interesse. As atividades pactuadas pelos jovens foram as que envolvem:

– formação política;

– valorização das práticas e saberes tradicionais através de participação em festas e outras atividades cotidianas, além de pesquisas e elaboração de registros escritos e audiovisuais;

– oficinas com conhecedores wajãpi para aprendizado de conhecimentos e técnicas tradicionais, como cerâmica, tecelagem, pintura corporal etc;

– capacitação para o uso de GPS, câmeras, computadores e outros equipamentos de comunicação;

– capacitação na área de mecânica para consertar motores, rádios e outros equipamentos;

– participação no monitoramento do Plano de Gestão da T. I. Wajãpi através do acompanhamento e registro das atividades das famílias nos limites da Terra Indígena Wajãpi;

– cotas para os jovens em oficinas e reuniões políticas promovidas pelas organizações wajãpi;

– continuidade dos encontros de jovens wajãpi e realização de reuniões locais dos jovens nas aldeias;

– intercâmbio com jovens de outros povos indígenas e não indígenas;

– capacitação para produção e interpretação de textos em português.

Os jovens manifestaram também o interesse na possibilidade de criação de um setor de jovens no Apina, proposta bem recebida pelos representantes das organizações Wajãpi.

Ao final do Encontro foi realizada uma avaliação coletiva e o cronograma para o II Encontro de Jovens Wajãpi, agendado para dezembro deste ano, em que será pactuado o plano de trabalho com os jovens Wajãpi, que declararam interesse em participar. Como etapa subseqüente, planeja-se também um encontro dos jovens com os velhos.

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