Iepé promove o III Encontro de Jovens Indígenas de Oiapoque

Com a participação de aproximadamente 150 jovens indígenas dos povos Karipuna, Galibi Marworno, Palikur e Galibi Kali’na, ocorreu, de 27 a 29 de maio de 2016, o III Encontro de Jovens Indígenas do Oiapoque. Realizado na aldeia Espírito Santo, as margens do rio Curipi, na Terra Indígena Uaçá, município de Oiapoque, Amapá, o encontro contou com jovens de idades variadas entre 13 e 30 anos, provenientes das diferentes regiões das Terras Indígenas de Oiapoque (Rios Uaçá, Urukauá, Curipi, Oiapoque e rodovia BR-156), além de representantes de organizações indígenas, do Conselho de Caciques dos Povos Indígenas de Oiapoque, da FUNAI e da equipe do Iepé.

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Estiveram reunidos durante três dias debatendo sobre como é ser jovem indígena no Oiapoque hoje, seus desafios e motivações; a relação dos jovens com as políticas públicas; e a visão de futuro que os jovens têm sobre si mesmos e seus povos e comunidades. Foram propostas atividades diversificadas, a fim de abordar estas temáticas sob diferentes prismas e contar com uma maior participação e envolvimento dos jovens.

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Além de um espaço de trocas, no qual a juventude indígena compartilhou seus dilemas e apresentou suas perspectivas de futuro também junto às outras gerações, o encontro se constituiu como uma instância de formação de novas lideranças, de organização e articulação política da juventude na região. Um dos encaminhamentos do evento foi a escolha de um representante dos jovens por aldeia, e um representante geral dos jovens indígenas do Oiapoque, que terão o papel de acompanhar os caciques nos encontros, eventos e reuniões do movimento indígena. Ficaram encarregados de dar continuidade ao movimento, pois como se diz na região de campos alagados do Baixo Oiapoque, “os caminhos precisam estar sempre sendo percorridos, porque senão eles fecham”. Decidiu-se também que os encontros de jovens indígenas serão anuais.

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O encontro dos jovens indígenas do Oiapoque foi o primeiro de uma série de encontros e reuniões comunitárias que o Iepé está apoiando nas Terras Indígenas do Amapá e norte do Pará com o objetivo de discutir a questão da juventude indígena. “O Iepé está construindo uma estratégia de ação institucional focada nos jovens como alvo de suas atividades nos próximos anos, a partir de oportunidades de diálogo com os próprios jovens, com lideranças e atores importantes nas comunidades indígenas. Há uma demanda expressa por parte dessas comunidades e de suas organizações representativas para que o Iepé atue junte a juventude, o que potencializa as chances de êxito desses encontros, já que há interesse comunitário manifesto sobre o tema”, afirmou Luís Donisete Benzi Grupioni,  coordenador executivo do Iepé.

Leia abaixo a carta dos jovens, aprovada no final do encontro.

CARTA DOS JOVENS INDÍGENAS

III ENCONTRO DOS JOVENS INDÍGENAS DO OIAPOQUE

Nós, jovens indígenas, reunidos no III Encontro dos Jovens Indígenas do Oiapoque, que reuniu delegações do Rio Oiapoque (TI Juminã), da BR-156, do Kumarumã, do Rio Urukauá, do Rio Kuripi, nos dias 27 a 29 de maio de 2016, na Aldeia Espírito Santo, apresentamos nesse documento o resumo dos nossos debates e conclusões.

Durante os três dias de encontro conversamos e debatemos sobre: 1. Como é ser jovem indígena no Oiapoque hoje, seus desafios e motivações; 2. A relação dos jovens com as políticas públicas; e 3. A visão de futuro que os jovens têm sobre si mesmos e seus povos e comunidades (nos temas da educação; saúde; cultura; movimento indígena; meio ambiente e território; produção e geração de renda).

Para nós, ser jovem indígena é:

– Seguir os costumes e crenças, dar respeito e ser respeitado, dar sua opinião e querer mudanças;

– Não ter vergonha de fazer tarefas da nossa cultura, no dia a dia ou em  eventos;

– É ter coragem para lutar e defender seus próprios direitos;

– É se assumir como jovem indígena que somos;

– É respeitar o passado, assumir o presente e garantir o futuro do nosso povo indígena;

– É não calar, é ter coragem de debater perante um desafio porque é o nosso direito;

Nossos desafios:

O alcoolismo e o tabagismo são desafios que enfrentamos hoje. Eles causam muitos problemas nas comunidades, podem causar desunião, e também falta de responsabilidade e participação dos jovens. Seu consumo exagerado pode gerar conflitos nas famílias, acidentes e inclusive mortes. Esses problemas são devido ao fácil acesso a bebidas alcoólicas e cigarros, especialmente em algumas das nossas comunidades, e ao trânsito de não-indígenas nas aldeias, em eventos e festas. A saída dos jovens para a cidade também é causadora desse problema.

Como possíveis soluções podemos apontar: a proibição da venda; o controle da entrada de bebidas alcoólicas nas comunidades; e a realização de palestras de conscientização e oficinas para os jovens. É importante respeitar as orientações dos mais velhos e evitar a saída dos jovens das aldeias (através de uma educação de qualidade dentro das terras indígenas). Vamos enfrentar e combater o álcool e o tabagismo entre os jovens nas comunidades, vamos atrás de palestras e projetos comunitários.

Os jovens e as políticas públicas

No nosso último encontro, em 2011, foram levantados nossos problemas e nossas propostas de solução, mas vimos que poucos deles foram resolvidos até hoje. Neste terceiro encontro, abordamos o tema das políticas públicas e também os problemas que estão acontecendo no país, com a visão dos jovens indígenas de Oiapoque. Diante disso, queremos melhorias urgentes principalmente para a nossa juventude, que é o nosso futuro.

Ações como oficinas, intercâmbios e reuniões são importantes principalmente para nós jovens que estamos crescendo e precisamos saber lidar com a realidade que vivemos nos dias de hoje. Durante nossas reuniões, adquirimos cada vez mais conhecimentos, que são repassados para os demais membros de nossas comunidades.

A luta do movimento indígena é importante para garantir nossos direitos, especialmente frente a situação de certas aldeias, com falta de profissionais, merenda e materiais didáticos. Pensamos que é importante que a escola não atrapalhe as atividades tradicionais da comunidade. Precisamos mais que a estrutura da escola, precisamos buscar ensinamentos com as pessoas mais velhas, aprender com os professores formados e também com os professores da vida. Já tivemos uma conquista de que, no ensino básico, quase a totalidade dos professores são indígenas, fazendo com que o ensino seja de melhor qualidade, nos sentindo mais à vontade e preservando nossa língua.

Valorizamos a conquista dos benefícios sociais, mas achamos importante fazer um bom uso deles. Como eles não são suficientes para a renda familiar, temos que buscar outras atividades de geração de renda.

Imaginando o futuro

  1. Cultura

Cultura para nós jovens indígenas é tudo aquilo que fazemos dentro de nossas comunidades e que é repassado de geração em geração: língua, crença e tradições, artesanatos e artefatos, modos de vida.

A juventude de hoje vem tentando fortalecer as atividades relacionadas a cultura de cada povo, que antes já estava quase se perdendo. Os profissionais indígenas passaram a ocupar seus próprios espaços dentro das comunidades, profissionais reconhecedores da sua própria cultura, e nós jovens passamos a fortalecer os nossos costumes, crenças e tradições dentro das escolas e comunidades.

A cultura também é repassada dentro das reuniões comunitárias, assembleias, dentro de casa e nos mutirões. Depois de várias discussões relacionadas às culturas indígenas, essa temática já foi implantada na grade curricular de ensino das escolas.

Apontamos algumas sugestões para aprimorar a questão da cultura:

– Fazer oficina para ensinar os jovens a fazer artesanatos da nossa cultura.

– Que a escola indígena incentive mais os alunos na parte de esportes, como: futebol, vôlei, queimada, arco e flecha, canoagem e natação.

– Fortalecimento da confecção de artesanatos nas comunidades indígenas.

– Fazer intercâmbios entre os povos indígenas.

– Incentivar os jovens a aprender com os mais velhos as rezas e plantas medicinais.

  1. Educação

Para a educação, queremos:

– Que seja realmente diferenciada, específica e de qualidade. Que não fique só no papel, que saia e seja realidade.

– Que tenha uma estrutura física que seja de acordo com a nossa realidade e com o clima da região.

– Que a educação escolar indígena, assim como as escolas, sejam geridas pelos indígenas.

– Que os materiais didáticos sejam produzidos por nós, de acordo com a nossa realidade.

– Que todas as escolas tenham internet.

– Que as escolas tenham o ensino regular.

– Que a merenda seja 50% regional e comprada dentro das comunidades.

– Formação continuada nas escolas para os jovens que terminam o ensino médio e ficam parados (cursos técnicos no modelo escola-família).

– Que o governo ofereça materiais escolares gratuitos aos alunos.

– Que ofereça concursos públicos específicos para professores indígenas.

– Mais professores formados em línguas maternas.

– Mais vagas nas universidades para indígenas.

– Respeito, nas universidades, às diferenças lingüísticas dos povos indígenas do Oiapoque.

– Aprovação dos projetos político-pedagógicos das escolas indígenas.

– Respeito às matrizes curriculares das escolas indígenas, pelo estado e pelo município.

– Quadras poliesportivas nas escolas.

– Construção de casas de apoio aos alunos indígenas nas cidades.

– Projetos que incentivem a valorização da cultura promovendo aulas de tecelagens, cerâmicas, danças, pinturas, ornamentos, artesanatos, entre outros.

  1. Saúde

Pensamos que no futuro poderíamos ter mais profissionais indígenas formados na área da saúde, que trabalhem nas terras indígenas. Consideramos que é preciso equipar os Postos de Saúde com medicamentos em geral e equipamentos, também com energia de qualidade para poder utilizá-los. Queremos:

– A construção de mini-hospitais em cada aldeia, para que os indígenas não saiam de suas aldeias para serem atendidos nas cidades. (Mas enquanto não chegarem os mini-hospitais, a construção de Postos de Saúde em cada aldeia).

– Que se façam projetos com plantas medicinais.

– Palestras e oficinas sobre doenças sexualmente transmissíveis, alcoolismo e tabagismo, gravidez na adolescência, entre outros temas de interesse das comunidades.

– Saneamento básico e tratamento do lixo nas aldeias.

  1. Meio ambiente e território

Apontamos a importância de manter nossas terras demarcadas e lutar pelos nossos direitos, de usar o conhecimento como arma.

Vemos a necessidade de ter cuidado com o aumento do lixo (especialmente das pilhas, lixo hospitalar e radioatividade) nas aldeias.

Sugerimos multiplicar experiências positivas, como a do projeto GATI, de trocas de conhecimento e intercâmbios.

  1. Produção e geração de renda

É preciso fortalecer a produção de farinha, banana, macaxeira, cará, açaí, através de:

– Projetos para adquirir maquinários.

– Fazer casa de farinha bem estruturada.

– Projetos de manejo de banana, açaí, laranja e cará.

– Projetos para adquirir transporte: embarcação e caminhão agrícola.

– Formação de técnicos agrícolas e engenheiros agrônomos indígenas.

Com relação à geração de renda, sugerimos:

– Legalizar a venda na Guiana Francesa e construir uma casa de feira em São Jorge.

– Qualificar a venda dos produtos agrícolas indígenas no Oiapoque, através de um espaço para feira agrícola indígena.

– Vender produtos agrícolas nas escolas.

– Encontrar empresa que compre por melhor preço o açaí dos povos indígenas do Oiapoque.

  1. Movimento indígena

O movimento indígena é uma grande luta para a demarcação e homologação das terras indígenas, junto com os caciques e outras lideranças. Queremos inserir um grupo de jovens indígenas nas assembleias e reuniões para participar junto com os caciques de cada aldeia. Decidimos escolher um representante jovem de cada aldeia, para acompanhar o cacique nesses eventos e repassar para a comunidade o que vem sendo discutido nesses espaços, aproximando os jovens do movimento indígena. Vemos esta posição como um lugar de muita responsabilidade.

Exigimos que todos os nossos direitos como jovens indígenas sejam respeitados e executados, que tenhamos voz e vez no movimento indígena local, regional e nacional.

Após as diversas discussões, esperamos que nossa juventude tenha visões mais abertas e muita força de vontade para interagir e desenvolver algo para se beneficiar e beneficiar suas comunidades.

Exigimos presença e colaboração mais ativa dos parceiros (FUNAI, OPIMO, AMIM, CCPIO e outros) que nos representam e desenvolvem trabalhos junto aos povos indígenas, para que juntos possamos somar cada vez mais.

Estamos felizes de poder ver que é possível fazer com que a juventude se mobilize em favor de seus direitos e ocupar seus espaços. Sabemos que os desafios são e serão grandes! Mas sabemos que com a nossa força de liderança jovem vamos somar forças para lutar, não pela igualdade mas pela diferença, para garantir nossa cultura e conhecer nossos direitos. Precisamos estar ao lado dos nossos grandes guerreiros e caciques, que são exemplos para nossa juventude e comunidade!

Oiapoque, Terra Indígena Uaçá, Aldeia Espírito Santo,

29 de maio de 2016.

 

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