Mais de 150 jovens indígenas se reúnem em Oiapoque

Jovens indígenas galibi marworno, karipuna, galibi kali’na e palikur se reuniram na Aldeia Ahumã, Terra Indígena Uaçá, em Oiapoque/AP, durante os dias 28 a 30 de junho, para discutir sobre sua condição de jovens indígenas e propor políticas públicas e ações nos temas de saúde, meio ambiente e cultura, geração de emprego e renda, educação, esporte e lazer e organização política.

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O II Encontro dos Jovens Indígenas de Oiapoque teve o apoio da Funai, através das Coordenações Técnicas Locais de Direitos Sociais de Macapá e Oiapoque, além da parceria com a organização não-governamental Iepé. Contou com a presença do representante indígena do Conselho Nacional de Juventude, Dinamam Tuxá, do Secretário de Juventude do Estado do Amapá, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), do Conselho Tutelar do Município de Oiapoque, da Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas, do vereador do Município de Oiapoque Elton Aniká, da Secretaria de Saúde Indígena/DSEI Amapá e Norte do Pará.

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O evento, que tinha como objetivo fortalecer o movimento de jovens indígenas de Oiapoque, estreitando os laços entre jovens de etnias diferenciadas que se identificam enquanto povos indígenas de Oiapoque, priorizou a troca de experiências. Nesse sentido, foi convidada uma jovem indígena da Articulação de Jovens Indígenas Tapeba – AJIT, Francisca Marciane Menezes, para relatar sua experiência na consolidação e fortalecimento dos jovens indígenas no Nordeste. Foram também convidados dois indígenas do povo Waiana, Kutanan Waiana e Axiwae Waiana, que compunham a delegação da Terra Indígena Parque do Tumucumaque (norte do Pará).

Finalizando o II Encontro, os jovens indígenas elaboraram um documento, denominado “A Carta de Ahumã”, em que apresentam suas proposições e seus projetos coletivos de futuro, refletindo sobre o equilíbrio necessário entre a juventude indígena e as lideranças tradicionais. O documento será usado para pressionar as instituições públicas e os governos, em especial nesse momento de construção do PPA 2012-2015, dos governos estadual e federal.

CARTA DO AHUMÃ -II Encontro dos Jovens Indígenas de Oiapoque

Nós, jovens indígenas, reunidos no II Encontro dos Jovens Indígenas de Oiapoque, que reuniu delegações do Rio Oiapoque (TI Juminã), da BR-156, do Kumarumã, do Kumenê, do Rio Kuripi, além da delegação da TI Parque do Tumucumaque, nos dias 27 a 30 de junho de 2011, apresentamos, nesse documento o resumo dos nossos debates e conclusões.

Sabemos que são muitos desafios para nós, mas estamos dispostos a trabalhar junto com os caciques para trazer melhorias para a nossa comunidade, aprendendo com eles e ensinando o que nós sabemos, a partir da nossa condição de jovens indígenas.

Para nós, ser jovem indígena é:

 

– É, antes de tudo, se assumir como índio, respeitar a nossa cultura, que os nossos antepassados deixaram para nós jovens;

– É ser corajoso, guerreiro, responsável e disponível para lutar pelos nossos direitos;

– É ser alegre e sonhar sem limites;

– É estar em uma fase específica de maturidade, mas que, ao mesmo tempo, há muita curiosidade sobre tudo o que é novo, por isso temos muita vontade de adquirir novos conhecimentos, sem esquecer de valorizar a nossa cultura;

– É não ter medo de ser ousado, por isso nós jovens indígenas não temos que nos calar, temos que ter coragem de debater perante um desafio, porque é nosso direito;

Somos o presente e o futuro de nossas comunidades, por isso temos que ajudar a decidir junto com as nossas lideranças o que for melhor para o nosso bem-estar, em meio a essa nova realidade em que vivemos;

– É fazer força de união com a juventude;

– É aquele que olha principalmente a realidade dos povos indígenas pela defesa do território e identidade cultural;

– É saber diferenciar o mundo dos brancos da cultura dos povos indígenas, em busca da valorização e luta pela não-discriminação.

 

Porém, para que isso aconteça, o jovem indígena tem que ser participativo em todas as reuniões e atividades comunitárias, como também obediente aos líderes de suas comunidades.

Durante os dias de Encontro, nós conversamos e debatemos sobre três questões: a) a importância de o movimento de jovens indígenas se organizar em Oiapoque; b) a maneira como o nosso movimento pode participar mais do movimento indígena local, regional e nacional; c) de que modo nós podemos nos articular com as lideranças tradicionais (caciques).

Sobre a importância do movimento de jovens indígenas se organizar, envolvendo todos os povos da região de Oiapoque, pensamos que essa união é importante para: colocar as conversas em dia, articular e trocar ideias entre nós, para o fortalecimento indígena; trocar informações sobre os problemas das comunidades e sobre as questões sociais; buscar nos tornar autônomos, com responsabilidade e determinação; garantir a nossa participação e oportunidade de falar, se organizar e expressar ideias; buscar conhecimento específico e não específico, através de palestras educativas (direitos, culturas, educação, saúde, meio ambiente e organização), garantindo seu futuro e de sua comunidade, valorizando a tradição; defender seus direitos no presente e se preparar para o futuro. Esse modo de organização é importante para que nós possamos lutar pelos direitos, conhecer melhor os deveres de ser indígena, propor ações de interesse dos jovens (“dos jovens para os jovens”), sempre contando com o conhecimento das lideranças tradicionais. O movimento de jovens indígenas é como uma “Escola de lideranças”, pois é o espaço de aprendizado e capacitação de futuras lideranças indígenas.

Com relação à nossa participação no movimento indígena local, regional e nacional e em articulação com as lideranças tradicionais, entendemos que nós também somos o presente do movimento indígena e não só o seu futuro, principalmente quando estamos reunidos em momentos como o desse Encontro. Além disso, a nossa participação se faz presente quando participamos de reuniões internas e momentos de formação e capacitação (reuniões comunitárias e serviços; assembleias; oficinas e seminários) da comunidade; quando garantimos a participação de representantes jovens nos encontros regional e nacional do movimento indígena, com propósito de repassar as informações para a comunidade; quando realizamos intercâmbios culturais entre as comunidades de Oiapoque e com os povos indígenas da Amazônia; troca de experiências com outros povos do Amapá e Norte do Pará e com participação anual dos jovens indígenas nos Acampamentos Terra Livre; adquirir conhecimento sobre empreendimentos que impactam terras e povos indígenas; participação dos jovens junto às lideranças nas assembleias internas e externas, com apoio dos professores, profissional de saúde e da comunidade.

Além disso, devido à vontade dos jovens indígenas de adquirir novos conhecimentos e manejar outras tecnologias, um papel importante que podemos desempenhar para a divulgação e o fortalecimento de nossa cultura é utilizar ferramentas de comunicação (mídias, internet) para conhecer o que está acontecendo no movimento indígena, no nível nacional e divulgar o que está sendo realizado localmente.

Para que tudo isso aconteça é preciso que as lideranças apoiem e garantam a participação dos jovens em reuniões e que os jovens também procurem conquistar o seu espaço no movimento indígena, demonstrando o seu interesse e a sua vontade em participar.

Os eventos na comunidade, reuniões e palestras nas escolas são o momento oportuno para que os jovens exponham suas ideias, valorizando as experiências dos mais velhos. Os diálogos constantes com as lideranças mais velhas sobre a cultura e tradição dos antepassados e a realização de pesquisas e conversas informativas sobre esses conhecimentos são um caminho necessário e importante para que os jovens indígenas consigam se fortalecer cada vez mais.

Diante dessas conclusões, nós conversamos e identificamos os problemas que atingem nossas comunidades e a nós, enquanto jovens indígenas, nas temáticas de saúde; educação, esporte e lazer; meio ambiente e cultura; geração de emprego e renda. Ao lado dos problemas, nós apresentamos nossas propostas de soluções que deverão ser encaminhadas para as instituições competentes e para nossos parceiros para que apoiem nossa luta.

 

Nossos problemas e nossas propostas de solução no tema da saúde

Os problemas que identificamos no tema da saúde foram:

– Falta de estrutura e espaço físico para atendimento melhor;

– Falta de medicamento ou em quantidade insuficiente para atender às nossas demandas nas áreas indígenas;

– Falta de formação de técnicos indígenas de saúde;

– Falta de informação nas aldeias;

– Falta de médicos na CASAI;

– Falta de leitos na CASAI Oiapoque e nos polos bases das aldeias;

– Falta de combustível para as ações itinerante;

– Problema de comunicação (falta rádio);

– Falta de transporte terrestre e fluvial;

– Consumo excessivo de bebida alcoólica;

– Falta de palestras sobre doença sexualmente transmissível;

– Falta de saneamento básico nas aldeias;

– Falta destinação adequada para o lixo.

 

Nossas propostas de solução para esses problemas foram:

– Procurar as lideranças para que eles possam, juntos, pressionar o governo municipal, estadual e federal;

– Elaborar os projetos e encaminhar para os órgãos competentes;

– Cobrar palestras sobre doenças (DSTs) e alcoolismo;

– Ouvir os conselhos dos caciques;

– Capacitação dos jovens sobre plantas medicinais com os mais velhos;

– Projeto de reciclagem do lixo em arte e em artesanato (ex. transformar as garrafas PET em bolsas, vassouras e bancos);

– Garantia da participação dos jovens no controle social (conselho local de saúde e conselho distrital de saúde).

 

Nossos problemas e nossas propostas de solução na área da educação

Os problemas que identificamos nessa área foram:

– Falta de apoio pedagógico;

– Falta de acompanhamento e fiscalização por parte dos órgãos como:  FUNAI, NEI, SEED;

– Necessidade de reforma e construção de escolas com alojamento para os professores;

– Falta de transporte escolar terrestre e fluvial;

– Poucos professores;

– Necessidade de formação inicial e continuada para professores;

– Falta de laboratório de informática e internet nas escolas;

– Desarticulação da Organização dos Professores Indígenas do Município de Oiapoque – OPIMO;

– Ausência de merenda escolar regionalizada;

– Falta de cursos profissionalizantes para professores e alunos (informática, técnico agrícola etc…);

– Necessidade de ampliação da Educação de Jovens e Adultos;

– Falta de materiais didáticos específicos;

– Falta de apoio aos estudantes indígenas na cidade.

Nossas propostas de solução para esses problemas são:

– Pedagogo permanente nas escolas;

– Que os órgãos competentes fiscalizem as escolas indígenas pelo menos duas vezes por mês;

– Reformar, construir e equipar as escolas;

– Aquisição de ônibus escolar;

– Aquisição de voadeira e motor de popa;

– Contratação de profissionais qualificados;

– Cursos de formação;

– Construção de laboratório de informática equipado e com acesso à internet nas escolas;

– Apoiar a reativação da OPIMO;

– Recurso financeiro para aquisição de merenda escolar na própria comunidade;

– Realização de cursos profissionalizantes nas comunidades;

– Produção de materiais didáticos específicos;

– Apoio financeiro para estudantes indígenas que estudam na cidade.

 

Nossos problemas e nossas propostas de solução no tema de esporte e lazer

Os problemas que identificamos no tema de esporte e lazer foram:

– Falta de uma quadra poliesportiva nas comunidades;

– Falta de materiais esportivos;

– Falta de incentivo aos esportes tradicionais (arco e flecha, canoagem, natação;

– Falta de apoio às artes cênicas (teatro, dança)

 

Nossas propostas de solução para esses problemas são:

– Construção de uma quadra poliesportiva nas comunidades;

– Aquisição de materiais esportivos;

– Valorização dos esportes tradicionais;

– Apoio financeiro para formação e divulgação dos grupos de teatro e danças.

 

Nossas reflexões e propostas para o tema de meio ambiente e cultura

Para nós, meio ambiente é tudo que nos cerca e cultura é a maneira como tradicionalmente nos relacionamos com o local onde vivemos. De acordo com essas ideias, entendemos que nossa missão, enquanto jovens indígenas, é lutar para garantir a continuidade da transmissão dos conhecimentos necessários à manutenção do nosso modo de vida.

APRENDER E PRATICAR PARA NÃO ESQUECER.

Nossa proposta para esse tema é trabalhar em conjunto com agentes ambientais e professores pela preservação do meio ambiente e valorização de nossa cultura, envolvendo toda a comunidade através de ações de sensibilização.

 

Nossas propostas para o tema de geração de emprego e renda

No tema de geração de emprego, nós decidimos propor cursos de formação e capacitação continuada nas áreas de informática avançada, técnico agrícola, engenharia florestal e ambiental, agente ambiental, técnico de enfermagem, engenharia de pesca, agronomia e outros, sempre pensando nas nossas comunidades, fortalecendo a nossa luta e a nossa cultura, convivendo com o território de forma sustentável.

No tema de geração de renda, nós concluímos que nossas demandas são ações voltadas para o fortalecimento da agricultura familiar, da piscicultura e apicultura (criação de peixes e abelhas sem ferrão), avicultura, manejo de açaí, viveiros de plantas medicinais, criação de quelônios, dentre outros.

 

No que se refere à maneira com que o movimento de jovens indígenas irão se organizar em Oiapoque, discutimos sobre a possibilidade de criação de uma articulação/associação de jovens indígenas. No entanto, após refletirmos, decidimos que o nosso momento agora é de conhecer o movimento indígena e participar mais das suas organizações. É um momento de aprendizado, antes de tomarmos um passo mais largo do que podemos dar. Mas isso não significa que não continuamos firmes, procurando nos encontrar mais, conversar mais entre a gente, participar mais das reuniões em nossas aldeias e assembleias do movimento dos povos indígenas em Oiapoque. Nesses momentos, nós jovens que moramos em aldeias, às vezes, muito distantes umas das outras, podemos nos encontrar e trocar informações sobre o que está acontecendo em nossas comunidades, além de aprender muito com as lideranças tradicionais.

Além disso, nós procuraremos conquistar nosso espaço nas organizações indígenas existentes em Oiapoque, como a AMIM, o Conselho de Caciques, enquanto isso tentamos aprender e amadurecer a ideia de construção de uma articulação/associação de jovens indígenas de Oiapoque, sendo esse um projeto para o nosso plano de vida.

 

Por tudo o que foi conversado e discutido nesse Encontro, finalizamos com a promessa de próximos encontros como esse, relembrando o nosso lema, enquanto jovens indígenas:

 

PRESERVAR > APRENDER > RESGATAR

 

Oiapoque, Terra Indígena Uaçá, Aldeia Ahumã,

30 de junho de 2011.

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