Representantes Tiriyó e Kaxuyana realizam intercâmbio ao Parque Indígena do Xingu

Entre os dias 26 de Abril e 8 de Maio foi realizado um intercâmbio de representantes Tiriyó e Kaxuyana, que vivem no Parque Indígena do Tumucumaque (norte do Pará) ao Parque Indígena do Xingu (Mato Grosso), parte do projeto de ATER Indígena, desenvolvido pelo Iepé e  financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Participaram do intercâmbio o cacique da aldeia Pedra da Onça, Aretina Tiriyó, o cacique do Tuhaneto, Davi Kaxuyana, o cacique do Omentanimpo, Sebastião Kaxuyana e o tesoureiro da Apitikatxi, Koneto Tiriyo, acompanhados pelo coordenador do projeto, Décio Yokota do Iepé, pelo técnico ambiental Osvaldo Souza e pelo assessor indígena Ianukulá Suiá Kaiabi. O itinerário do intercâmbio foi elaborado por Ianukulá e Osvaldo e incluíram a visita aos Kinsedje, Kaiabi, Ikpeng, Yawalapiti, Kalapalo e Waurá, em 8 aldeias e 3 Postos Indígenas do Baixo, Médio e Alto Xingu. Foram mais de 3400 quilômetros saindo da Missão Tiriyó, no Parque Indígena do Tumucumaque – PIT, divisa com o Suriname, até a cidade de Canarana, no Mato Grosso, para depois percorrer outros mil quilômetros entre estradas e rios a partir de Canarana-MT, rumo ao interior do Parque do Xingu.

O objetivo do intercâmbio foi possibilitar aos Tiriyó e Kaxuyana conhecer o relacionamento de outros povos indígenas com o cerrado. No Parque Indígena do Tumucumaque, onde vivem esses representantes indígenas, há uma vasta região de cerrado, com cerca de 550 mil hectares. Por se tratar de um ecossistema isolado, no cerrado do Tumucumaque não estão presentes espécies emblemáticas dos cerrados do Brasil Central, como o Pequi, o Baru e a Mangaba.

No percurso ao Parque Indígena do Xingu – PIX, os participantes ficaram impressionados com a devastação do entorno, causado principalmente pelas imensas plantações de soja que vão até o limite do PIX. Os contrastes entre os dois parques começam no tamanho, o PIT (4,2 milhões de ha) é 1,5 vezes maior que o PIX (2,8 milhões de ha), mas é no entorno onde as diferenças são mais chocantes: enquanto o acesso ao PIT só é possível por via aérea, não faltam estradas e rios que dão acesso ao interior do Xingu. Em contraste com as fazendas, assentamentos e cidades que encontramos no entorno do Xingu, no PIT não existe população de não-índios no entorno. Além do Suriname, o entorno do PIT é todo formado por unidades de conservação de proteção integral.

Vimos uma destruição muito grande em volta da TI, de fazendeiros, de soja. Agora na nossa área não entra ninguém. Estamos isolados, mas não é porque estamos isolados que estamos abandonados, nós estamos é protegidos. Porque o que vimos de destruição é muita tristeza.” Sebastião Kaxuyana.

Descobertas: pequi, buriti, sapé…

O intercâmbio proporcionou aos Tiriyó e Kaxuyana seu primeiro contato com o  pequi. Apesar de acostumados com o pequiá da floresta de sua região, não existe pequi no cerrado do PIT. O fato do pequi do Xingu ser muito maior e mais produtivo que o pequi nativo do cerrado é prova do processo de domesticação que tem sido feita pelos índios da região há muito tempo. Apesar de estarmos fora da época do pequi, pudemos provar o mingau de pequi feito com a massa que se conserva dentro do igarapé e levar alguns pequis que estavam produzindo fora de época.

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Primeiro contato com o Pequi do Xingu

Mesmo depois da safra, eles nos mostraram como eles conservam o pequi por até um ano dentro do igarapé. Até chegar a nova safra eles ficam comendo desse pequi conservado dentro da água.” Davi Kaxuyana.

Outro ponto bastante destacado pelos participantes foi ter aprendido como utilizar o buriti e o sapé como cobertura para casas.

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Aretina Tiriyó aprendendo a trançar palhas de buriti nos Kinsedje

O sapé, a gente não dava valor. Agora que eu vi com meus próprios olhos as casas feitas de sapé, eu também estou dando valor ao sapé. Fiquei muito interessado em levar esse conhecimento pra minha aldeia, Pedra da Onça, porque lá tem muito sapé. Também fiquei muito interessado em ver as casas feitas de buriti. Eu até pude subir com eles na casa e ajudar a tecer algumas palhas. Eu pensei, estou perdendo uma riqueza, porque lá na minha aldeia tem muito buriti. Eu já tinha tentando fazer uma casa dessa palha, mas não deu certo. Lá eu pude ver que não foi do jeito que eu fiz e eu vou poder valorizar essa palha também.” Aretina Tiriyó.

Com os povos visitados no alto Xingu, Yawalapiti, Kalapalo e Waurá, os participantes puderem conhecer outras técnicas de plantio de mandioca, sua principal cultura.

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Aprendo técnicas de plantio de mandioca nos Waurá

Eles mostraram o modelo deles do jeito de plantar, eles mostraram um segredo pra nós que não pode começar a cavar a cova de costas pro nascer do sol, tem que ficar de frente do nascer do sol. Porque se não plantar assim, pode vir um pé de vento e derrubar o pé de mandioca. Porque essa é a direção do vento lá na aldeia deles. Isso é muito importante pra mim porque perco muito pé que deita com o vento e depois tem que ter o trabalho de jogar terra na raiz de novo, mesmo assim não fica bom.” Aretina Tiriyó

A estrutura de atendimento dos convênios de saúde também deixaram uma forte impressão nos participantes.

O atendimento à saúde deles é bem organizado, tem até internet lá, coisas que não existe para nós. Os funcionários são todos índios. Eles mesmos dizem que não aceitam branco trabalhar lá dentro se não for médico ou enfermeira. Eles mesmos são formados para trabalhar pra eles. Até técnico de saúde indígena dentista eles têm. Foi tudo novidade. Em todas as aldeias que fomos tinha água encanada, em todos os pólos base tinha internet. Médico vai lá e passa um mês lá com eles. E nós? Médico nem pisa na nossa terra.” Sebastião Kaxuyana.

Assim como as sementes de pequi doados pelos Kalapalo e Waurá, os participantes esperam levar essas experiências para suas comunidades, reproduzindo um pouco do que viram no Xingu.

A realização deste intercâmbio integra um conjunto de atividades que o Iepé está desenvolvendo junto aos Tiriyó e Kaxuyana do Parque Indígena do Tumucumaque, apoiando o uso mais racional de suas áreas de cerrado e o fortalecimento de suas roças de subsistência.

Decio Yokota.

 

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