Texto: Julia Affonso

A emergência climática vivida nas aldeias localizadas na região do Brasil e a Guiana Francesa foi assunto na COP 30 em Belém. O assunto foi tema do painel “Da erosão pelas marés à praga nas roças: desafios climáticos vivenciados pelos povos indígenas na fronteira Guiana Francesa-Brasil”, realizado no dia 14 de novembro, no Pavilhão Círculo dos Povos, organizado pelo Ministério dos Povos Indígenas, na Zona Verde.
O encontro reuniu lideranças indígenas que trouxeram relatos diretos de transformações ambientais que já ameaçam seus territórios, modos de vida e a cultura dos povos da região.

Erosão costeira e submersão: emergência climática na Guiana Francesa
Tiffanie Hariwanari e Felix Tiouka, adjuntos da prefeitura de Awala-Yalimapo, na Guiana Francesa, apresentaram um cenário preocupante: avançam rapidamente os processos de erosão costeira e submersão, fenômenos que resultam em grandes inundações e perda progressiva de áreas habitadas. As marés têm alcançado pontos antes considerados seguros, acabando com as praias, destruindo casas, alterando o traçado da comunidade e colocando em risco infraestruturas essenciais. Segundo relatos das comunidades, em alguns pontos a linha da costa já recuou tanto que famílias precisaram se deslocar e reorganizar seus espaços de convivência.
“Seremos nós os primeiros refugiados climáticos da Guiana Francesa?”, perguntou Hariwanari enquanto mostrava fotos da situação em que vivem atualmente e destacando que além dos danos materiais, a erosão tem impactos simbólicos, afetando locais de memória e a relação com o território.
Atualmente, a prefeitura tem construído barreiras temporárias para tentar conter o avanço do fenômeno e proteger a comunidade. No entanto, as próprias autoridades reconhecem que essa medida está longe de ser suficiente para resolver o problema.

A pandemia nas roças no Oiapoque
Do lado brasileiro da fronteira, lideranças das Terras Indígenas do Oiapoque detalharam os efeitos da praga da vassoura-da-bruxa da mandioca, doença que tem devastado roças na região. A perda das plantações compromete a segurança alimentar de dezenas de aldeias e coloca em risco uma cadeia produtiva que envolve trabalho coletivo, rituais e transmissão de conhecimento tradicional.
Edimilson Karipuna, cacique presidente do Conselho dos Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO), destacou a praga como uma consequência direta das mudanças climáticas. Segundo ele, a mandioca, além de ser o principal alimento, tem papel essencial no bem viver, na economia e no sistema cultural desses povos.
O debate também reforçou que as mudanças do clima já são sentidas de forma intensa na região e exigem ações urgentes — tanto de governos quanto de instituições internacionais — para apoiar as estratégias de adaptação construídas pelos próprios povos indígenas.
Nesse sentido, Luene Karipuna, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Amapá e norte do Pará (Apoianp), apresentou o trabalho de sistematização desenvolvido pela Associação de Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM), sobre a pandemia nas roças, seus impactos nas terras indígenas e as estratégias que vêm sendo desenvolvidas pelos povos indígenas para seu enfrentamento.
Luene também mostrou o livro Marcadores do Tempo, , resultado de uma formação com lideranças indígenas do Oiapoque sobre mudanças ambientais e colapso climático. A publicação reúne saberes tradicionais que mostram como os povos observam e monitoram as alterações nos ciclos da natureza, por meio de marcadores como o comportamento dos pássaros, o surgimento de flores, o comportamento dos rios e a crescente instabilidade das chuvas e das secas.
Aliança transfronteiriça pela defesa da Amazônia
“Esse encontro não se encerra aqui, temos desejo de continuar fortalecendo esses espaços de diálogo, parceria e construção conjunta” destacou Felix Tiouka em suas palavras finais.
Para o coordenador executivo do Iepé, Luis Donisete Benzi Grupioni, impulsionar esse diálogo transfronteiriço é retomar redes de intercâmbio que sempre existiriam nessa região, que compartilha um mesmo perfil sociocultural comum: “Essa região tem uma história em comum, um passado rico em contatos, trocas comerciais, políticas, rituais e matrimoniais, que remontam há séculos. As relações entre esses povos não deixaram de existir com as fronteiras nacionais, mas foram impactadas pela consolidação dos estados na região. Daí a importância desses diálogos, ainda mais agora diante dos desafios que as mudanças no clima estão trazendo para esses povos”.
O painel é um desdobramento dos Diálogos Ameríndios, realizado no âmbito da “Temporada ano da França no Brasil-2025”, marcando a retomada da aproximação dos povos indígenas do Amapá e da Guiana Francesa num encontro que fortaleceu a formação de alianças e a defesa da Amazônia em uma perspectiva transfronteiriça.
Saiba mais sobre o Diálogos Ameríndios no video abaixo:
O encontro na COP 30 foi realizado pelo Iepé, com apoio do Instituto Francês, da Rainforest Foundation Norway (RFN) e do Instituto Clima e Sociedade (iCS).


