Iepé promove lançamento do livro “O lago Maruane” na aldeia Kumarumã, Terra Indígena Uaçá

No dia 22 de novembro de 2017, na Escola Indígena Estadual Camilo Narciso da aldeia Kumarumã (TI Uaçá), foi lançado o livro “O lago Maruane: conhecimentos tradicionais dos Galibi Marworno”, organizado pelo professor indígena Davi Felisberto dos Santos e fruto da parceria entre a Organização Indígena da Aldeia Kumarumã (OINAK) e o Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena.

O livro reúne os saberes do povo Galibi Marworno a respeito de um lugar de referência em seu território: o Lago Maruane. Um lugar cheio de histórias e mistérios, um ponto estratégico que marca um dos limites da Terra Indígena Uaçá e uma fonte importante de recursos para as comunidades no seu entorno. Apresenta-se, no livro, uma paisagem composta pelas histórias contadas pelos mais velhos e pelos desenhos dos mais jovens, trazendo também a visão dos agentes socioambientais indígenas, a partir do intercâmbio realizado no Lago Maruane no âmbito do projeto “Paisagens socioculturais: reconhecendo o Lago Maruane”, a partir do edital do Projeto GATI/FUNAI e o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN).

Considerando que nas atividades de elaboração do etnozoneamento das TIs do Oiapoque, realizadas entre 2013 e 2014, revelou-se um desconhecimento dos jovens indígenas com relação ao seu território, este projeto teve como objetivo promover um intercâmbio dentro da terra indígena, mobilizando jovens, professores, lideranças, anciãos e pesquisadores indígenas na visitação deste lago que é uma referência para o povo Galibi Marworno. Os trajetos percorridos no intercâmbio abrangeram as antigas rotas utilizadas pelos mais velhos, as histórias relacionadas ao lago, como também os conhecimentos da geografia física, histórica e sociocultural das terras indígenas.

O livro é uma permanência, é importante deixar para a escola essas histórias sobre o lago Maruane para os alunos. É uma alegria ver as coisas acontecerem de fato, deixar escrita nossa história, a história da Terra Indígena Uaçá, que os jovens precisam conhecer para saber como foi no passado e como está sendo hoje” (Paulo Roberto Silva, liderança da aldeia Kumarumã)

A iniciativa contou com o intercâmbio no lago, uma oficina de desenho na escola e todo um trabalho de pesquisa e sistematização de dados, realizado pelo professor Davi, até chegar no resultado final do livro. Ao apresentar o livro, Davi comenta:

Estou muito feliz de ver o lançamento de um projeto que é nosso, Galibi Marworno, e deixa um exemplo para outras iniciativas no caminho de uma escola realmente diferenciada. É muito importante esse papel de pesquisador dos professores e alunos. Toda pesquisa tem um começo e uma continuação. Esse livro não é o fim, mas uma provocação para o leitor buscar saber mais, contestar, aprofundar. Muita gente não sabia as histórias do Maruane, as riquezas que tem lá, principalmente os jovens. É importante conhecer o que se vê e o que não se vê no lago Maruane, como os sábios mais antigos contaram para a gente. Esses contadores de histórias têm muito saber, entendem e explicam detalhadamente sobre as configurações da paisagem, conhecimentos de geografia, história, arte, cultura, língua. Esse livro é interdisciplinar. Coletamos muita informação, o desafio foi fazer a seleção, organizar todo material, e fica a provocação para continuar. Esse livro é um documento sobre a nossa terra indígena, sobre o nosso território” (Davi Felisberto dos Santos, organizador do livro)

Com a participação de mais de cem pessoas, em sua maioria jovens, o lançamento configurou-se como uma aula aberta, contando com debates sobre a importância da valorização dos conhecimentos indígenas, sobre o protagonismo indígena na realização de projetos e produção de materiais didáticos, sobre como fazer uma escola realmente diferenciada e até mesmo sobre a padronização da grafia da língua khéuol, trazendo depoimentos dos participantes do projeto: contadores de histórias, jovens e professores. O evento foi conduzido por Sergio dos Santos (OINAK), Davi F. dos Santos (professor indígena e organizador do livro), Rita Lewkowicz e Marcela Feitosa (do Programa Oiapoque do Iepé). Contou com a participação de Gilberto Iaparrá (coordenador CCPIO), Naldo (diretor da Escola Camilo Narciso), Nordevaldo dos Santos (co-organizador do livro), Luis dos Santos (vereador indígena), Paulo Silva (liderança da aldeia Kumarumã), Alex (cacique do Kumarumã) e Vinicius Benvegnú (professor da Lic. Intercultural – UNIFAP).

Enquanto organização [OINAK], puxamos esse projeto junto ao Iepé, de valorizar os conhecimentos ancestrais do nosso povo Galibi Marworno. Na época que não tinha energia, minha avó contava muitas histórias para nós. Mas hoje não fazemos mais isso. Por isso é importante esse segredo dos antigos poder ficar num livro como esse” (Sergio dos Santos, representante da OINAK)

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