Acompanhamento dos agentes socioambientais (AGAMIN) nas Terras Indígenas do Oiapoque

Durante o mês de outubro de 2017 foi realizado o acompanhamento do trabalho de 38 agentes ambientais indígenas (AGAMIN) nas cinco regiões das terras indígenas do Oiapoque, buscando assessorar a realização das atividades do curso de formação nas aldeias. A Formação dos Agentes Socioambientais Indígenas está baseada na perspectiva da alternância, dividida entre as etapas presenciais, com módulos das disciplinas no Centro de Formação, e as atividades de dispersão nas aldeias. No acompanhamento, foram realizados encontros coletivos de revisão das temáticas do curso, reuniões informativas nas comunidades, atendimentos individuais sobre o andamento das pesquisas dos estudantes, expedições de coleta de quelônios e oficinas de metodologia de pesquisa.

Nas regiões dos Rios Uaçá e Rio Urukauá, o acompanhamento foi realizado por Roselis Mazurek, professora da disciplina “Práticas de manejo sustentável”, e no Rio Curipi e BR-156, por Augusto Ventura dos Santos, professor da disciplina “Sistemas de conhecimento”; ambos acompanhados pela assessora do Iepé, Rita Lewkowicz. Também foram realizados intercâmbios internos, em que agentes socioambientais de uma região participaram do acompanhamento em outras regiões, buscando ampliar o conhecimento dos jovens de seu território e proporcionar trocas de conhecimentos entre eles. Além de concretizar um projeto de trabalho mais enraizado e descentralizado junto aos agentes socioambientais, o acompanhamento contribuiu para o fortalecimento do papel do AGAMIN nas aldeias e colocou em pauta preocupações socioambientais visando aprimorar a implementação do PGTA das TIs do Oiapoque.

Passada nas aldeias: reuniões informativas nas comunidades

“A comunidade precisa entender o trabalho dos agentes para poder dar apoio” (Adailson dos Santos)

Foram realizadas reuniões informativas em 32 aldeias da TI Uaçá e TI Juminã. As reuniões foram conduzidas pelos estudantes, visando apresentar o trabalho do AGAMIN, informar sobre o andamento da formação e compartilhar com as comunidades certas temáticas trabalhadas no curso. Reforçaram, também, a importância dos agentes ambientais trabalharem junto com os caciques, AIS e professores.

Tratando da relação entre meio ambiente e saúde, os agentes ambientais apresentaram os impactos da poluição, a problemática do lixo nas aldeias com o aumento do consumo de produtos da cidade, e as doenças relacionadas às mudanças na alimentação. Relataram, também, a experiência na coleta de amostras para a pesquisa sobre a contaminação do mercúrio no Amapá e norte do Pará:

“O mercúrio é um grande desafio. Vou falar do trabalho que acompanhei no rio Cassiporé. Estou preocupado em como esta contaminação pode afetar também o rio Uaçá, pois tem vários igarapés que conectam esses dois rios. Ela atinge não só os peixes, mas também os seres humanos, pode causar doenças. O mercúrio é uma matéria química, da grande indústria, usada no garimpo para juntar o ouro.” (Caviano Forte)

Rosenilda Martins complementou: “Se o mercúrio cai na água, o peixe come, e a gente come. Vamos adoecer e às vezes nem sabemos que tem relação com o próprio mercúrio. Pode trazer doenças para os animas e as pessoas, e o mercúrio vai só acumulando.”

Também compartilharam sua preocupação com as queimadas dos campos e reforçaram a necessidade de buscar diferentes alternativas para lidar com o desafio do aumento da pressão sobre os recursos naturais, dentro e fora das terras indígenas. Para tanto, reforçou-se a importância do curso de formação como um diálogo entre os conhecimentos indígenas e não indígenas.

No acompanhamento, foi possível observar as placas colocadas no rio Uaçá pelo grupo dos AGAMIN da região. Colocaram avisos sobre a proteção e preservação do meio ambiente, tais como: “não polua o rio”, “não jogue lixo no rio”, “não tire ovos de tracajá”, “proibido usar tramalho”, “as madeiras de lei estão acabando”, entre outros.

 

Manejo dos quelônios nas terras indígenas do Oiapoque

Durante o acompanhamento dos AGAMIN, foram realizadas atividades de coleta de quelônios e também o levantamento do andamento do manejo do tracajá nas diferentes regiões. Essa atividade visa plantar os ninhos de ovos de tracajá nas aldeias, para depois realizar a soltura de volta para a natureza, visando também um trabalho de educação ambiental aliado a escola e comunidade. Este projeto também tem apoio da CTL de etnodesenvolvimento da FUNAI/Oiapoque.

Na região do Uaçá, o trabalho está bastante avançado, atualmente totalizando em mais de 1mil ovos coletados, pelos dois grupos de coleta: de Adailson dos Santos (Sodá) e de Manoel Severino. Desde 2003, o manejo do tracajá não parou nesta região. Nas outras regiões, a coleta tem sido realizada, mas em números menos expressivos. O foco tem sido mais na sensibilização das comunidades para a preservação do tracajá. No rio Curipi, estão retomando o trabalho com quelônios que estava parado há anos e, durante o acompanhamento, realizou-se a coleta de 3 ninhos, a partir das orientações dos agentes socioambientais: Geô Ioiô, do Kumenê, e Lázaro dos Santos, do Kumarumã, através de um processo de diálogo de “parente para parente”.

“Antigamente a gente roubava muito tracajá da natureza, agora os agentes ambientais estão devolvendo para a natureza. Agora ela está se recuperando, já vemos mais do que tinha antes, está aumentando.” (Manoel Severino dos Santos)

Valorização dos conhecimentos indígenas

Aprender a pesquisar também é um dos objetivos do curso de formação dos agentes socioambientais indígenas. Assim, buscou-se acompanhar o andamento das pesquisas individuais temáticas que cada um dos estudantes está desenvolvendo no âmbito da disciplina “Sistemas de conhecimento”, assim como assessorar a realização da pesquisa/levantamento sobre caça, pesca e alimentação nas terras indígenas do Oiapoque, visando um diagnóstico preliminar para a disciplina “Práticas de manejo sustentável”.

Além disso, nas regiões do rio Curipi e BR156, foram realizadas oficinas de metodologia de pesquisa, discutindo técnicas mais rígidas e mais maleáveis de pesquisa, e realizando também um exercício prático de pesquisa coletiva. Na aldeia Santa Isabel, entrevistou-se a liderança antiga, Sr. Alfredo dos Santos, sobre a fundação da aldeia no rio Curipi; na aldeia Tukay, entrevistou-se o cacique Izardes dos Santos, sobre a organização social da comunidade e o trabalho do cacique; e na aldeia Curipi, entrevistou-se o agente ambiental Mayke dos Santos, sobre as mudanças na incidência da caça ao longo dos anos na região.

As pesquisas realizadas pelos agentes socioambientais focam na valorização dos conhecimentos indígenas como parte fundamental da gestão socioambiental das terras indígenas. Além disso, buscou-se realizar todas as atividades do acompanhamento em kheoul e palikur, fortalecendo a expressão na língua materna e o exercício das traduções.

O acompanhamento é parte constitutiva da Formação dos Agentes Socioambientais Indígenas do Oiapoque e foi realizado com recursos do Fundo Amazônia, no âmbito do Projeto IGATI, uma parceria entre o Iepé e a TNC.

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