Povos Indígenas participam da 9ª edição do Curso Diálogos Agroecológicos na Embrapa em Brasília

Entre os dias 18 e 23 de setembro, aconteceu nas diversas unidades da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, sede em Brasília), o curso Diálogos Agroecológicos, integrando a segunda etapa do intercâmbio planejado dentro do Programa de Formação de Jovens e Lideranças em Gestão Territorial e Ambiental, em curso no Complexo Tumucumaque, com apoio do Fundo Amazônia/BNDES.

O curso contou com 30 participantes, representantes de povos Karib (Apalai, Akuriyó, Katxuyana, Txikiyana, Tiriyó, Wayana, dentre outros). Além destes jovens, lideranças e caciques da TI Parque do Tumucumaque e TI Rio Paru d’Este, situadas no norte do Pará e divisa com Amapá, também participaram do cruso dois jovens da TI Uaçá, localizada no Oiapoque, norte do Amapá, bem como assessores indigenistas antropólogos e agrônomos do Iepé. Os dois agentes socioambientais indígenas do Oiapoque compartilharam a importante experiência que têm tido em parceria com a Embrapa no Amapá, através do Projeto ABC, considerando a participação nos diálogos em Brasília como uma possibilidade para estreitar os laços com a instituição e pensar em projetos futuros.

A programação do curso foi construída numa parceria entre Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia – Cenargen, Iepé, Apiwa (Associação dos Povos Indígenas Wayana e Apalai) e Apitikatxi (Associação dos Povos Indígenas Tiriyó, Kaxuyana e Txikyana), sendo seu objetivo principal o aprofundamento do que se entende a respeito de como garantir a conservação dos recursos genéticos utilizados pelos povos indígenas do Complexo Tumucumaque.

Ao longo da semana, a turma visitou a Embrapa Cenargen, Embrapa Hortaliças e Embrapa Cerrados. Durante a abertura do encontro, o José Manoel Cabral, da Chefia Geral da Embrapa Genéticos e Biotecnologia, ressaltou:

Com os “Diálogos Agroecológicos” queremos fazer uma troca de saberes, dos saberes indígenas e dos saberes do homem branco, para que a gente possa unir os conhecimentos tradicionais aos conhecimentos que a Embrapa desenvolve para ter uma melhor aplicação na agricultura e alimentação. Nossa unidade, CENARGEN, é um centro de pesquisa de conservação de materiais genéticos, de plantas, animais e microorganismos. Temos tido, junto com as comunidades indígenas e tradicionais, diversos programas de resgate de materiais tradicionais e também de levar materiais que temos guardados para as terras indígenas. Esse trabalho tem sido muito proveitoso tanto para nós da EMBRAPA quanto para as populações tradicionais.

O primeiro dia o curso aconteceu na unidade Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia – Cenargen, quando foi apresentado o sistema de curadoria dos recursos genéticos da agricultura. Os curadores são cientistas responsáveis por cuidar da conservação de determinada cultura. Ao longo do curso, os participantes contaram com a presença e diálogo de curadores das seguintes culturas: mandioca, batata doce, abóboras, inhames, algumas frutíferas, pimentas, dentre outras. Neste dia, também se realizou uma visita à coleção da Base de Germoplasma, local onde as sementes são tratadas e armazenadas em câmaras frias por até 40 anos, sem perder a capacidade de germinação. Tratou-se do tema conservação “in situ”, que é a realizado pelas comunidades por meio do plantio contínuo das sementes. É a melhor forma de conservação, ou seja, manter o uso e trocas das plantas ou variedades. A conservação no Banco se chama “ex situ”, e é um sistema de segurança, caso as variedades se percam no campo. Um exemplo importante apresentado foi sobre a recuperação de variedade de milho da etnia Krahô, que havia sumido do território e foi achado no banco de sementes da Embrapa.

Cecília Apalai, presidente da Apiwa, relata: Às vezes, a gente acaba perdendo certas espécies porque vêm plantas de fora e acabam desvalorizando a que a gente tem. Esse curso está sendo interessante para nós, pois está fortalecendo para preservar mais nossas plantas tradicionais e ver também as que vem de fora. Nós dependemos das plantas, nossa alimentação principal é a mandioca, a do dia a dia. Assim como aqui é o arroz e feijão, nossa alimentação principal é o beiju, a farinha, a bebida da mandioca também. Na minha roça, tem 20 espécies de mandioca. Aprendi com a minha mãe: não misturo, faço tudo separado. Para os jovens, é importante que conheçam e melhorem a segurança alimentar. A gente vem procurando parceiros para melhorar agricultura, pois estamos preocupados com a mudança. Hoje, com esse diálogo, estamos abrindo a mente, a consciência para valorizar o que temos lá dentro. E penso que é importante guardar aqui dentro da Embrapa também, pois assim nossas futuras gerações podem buscar aqui de volta.

A liderança Demétrio Tiriyó complementa: Antigamente, nós vivíamos trocando nossas sementes, meu povo Tiriyó ia para outro lugar, trocar. Isso acontecia há muito tempo atrás, hoje não acontece mais. Cada vez mais nós, povos indígenas, estamos perdendo nossas sementes, pois nós estamos começando a aprender a viver dentro da terra demarcada. Para segurar as sementes, nós vivemos trocando. Quando perdia, sempre pedia para outro parente de novo. Através disso, era o nosso banco, nosso banco de sementes.

No segundo dia, o curso aconteceu numa propriedade de um grupo de agricultores parceiros da Embrapa, grupo este que desenvolve experiências com hortas orgânicas, sistemas agroflorestais e utilização de plantas diferentes das mais popularmente conhecidas na alimentação humana. Visitou-se uma horta bem diversificada e um sistema de recuperação de área degradada de cerrado com o plantio adensado de diversos tipos de árvore, um tipo de sistema agroflorestal.

No terceiro dia, a programação foi na Embrapa Hortaliças para que os participantes tomassem conhecimento das coleções de batata doce, pimenta, abóbora e diversas plantas que os curadores denominam de não convencionais ou tradicionais, como o ora-pró-nobis, a moringa dentre outras. No quarto dia, o Curso aconteceu na Embrapa Cerrados, com o objetivo de conhecer o trabalho com mandioca e com frutas desenvolvido pelos pesquisadores neste bioma. No quinto e último dia, o curso voltou para a Embrapa Cenargen, com exposições dialogadas sobre o programa de aquisição de alimentos (PAA) e outros temas.

Durante o encerramento com agradecimentos e danças tradicionais, o cacique Aretina fez a seguinte fala:
Isso é muito bom, esse diálogo. Vocês mostraram várias coisas que a gente não conhecia muito, várias espécies, pimentas, batatas, até difícil acreditar que existe. Eu estou levando as sementes de vocês, e quero voltar e dizer se essa semente está dando certo, indo bem. A gente tem que continuar tendo essa conversa, não pode terminar aqui. Se não der certo o que a gente plantar, queremos conversar, pensar junto o porquê, se é o nosso cerrado que é diferente, se é a terra que é diferente. A gente quer dividir isso com vocês depois, é bom ter essa parceria com a Embrapa, para fazer essa pesquisa juntos. Queremos trocar ideias, trocar sementes, conhecer a experiência de vocês e continuar essa conversa. 

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