Iepé comemora 10 anos de atuação

Em 2012 o Iepé comemora 10 anos de sua fundação e atuação junto aos povos indígenas do Amapá e Norte do Pará. Para marcar a data foi realizado no último dia 14 de dezembro, em Macapá, um seminário sobre o tema “Patrimônios culturais indígenas no Amapá e norte do Pará” e lançou uma revista comemorativa.
Equipe

O seminário, realizado no auditório da Escola Técnica Graziela Reais, contou apresentações das sociais fundadoras do Iepé, as antropólogas Lux Boelitz Vidal, Denise Fajardo Grupioni, Lucia Van Velthem e Dominique Tilkin Gallois, com mediação do coordenador executivo do Iepé, Luis Donisete Benzi Grupioni. Cerca de 80 técnicos e gestores de órgãos públicos do Amapá, de institutos de pesquisa, universidades e representantes de comunidades indígenas da região participaram do seminário.

Em sua fala, Lux Vidal, professora emérita da Universidade de São Paulo, destacou a trajetória para a constituição e a proposta que fundamenta as ações do Museu Kuahí dos Povos Indígenas do Oiapoque, criado em 2007, e que tem como princípio não ser um museu “sobre” mas sim “dos” índios, já que é pensado e gerido por eles. Denise Grupioni, coordenadora do Programa Tumucumaque do Iepé, por sua vez, propôs uma reflexão sobre as formas entendimento sobre o que é patrimônio imaterial, material e cultura, e de como tais conceitos são apreendidos pelos povos indígenas, citando como exemplo os trabalhos de valorização cultural realizados entre os Tiriyó e Kaxuyana, do Parque Indígena do Tumucumaque. Lucia Van Velthem, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi e do Ministério da Ciência e Tecnologia, relatou seu trabalho entre os Wayana e Aparai, enfatizando projetos já finalizados (elaboração de cartilhas sobre temas como a caça e conhecimentos associados), em curso (caso do projeto Museus Amazônia em rede, iniciativa em parceria com a Guiana Francesa e o Suriname) e futuros (destacando a iniciativa de inscrição do registro da arte gráfica Wayana e Aparai no Iphan). Os desafios inerentes ao trabalho junto aos pesquisadores indígenas foi o mote da apresentação de Dominique Gallois, professora da Universidade de São Paulo. Tomando como exemplo o Plano de Salvaguarda da arte gráfica Wajãpi, destacou a necessidade de não adotar abordagens simplistas uma vez que a operacionalização de ações de valorização cultural voltadas aos povos indígenas não devem se ater ao ato em si, mas sim de viabilizar ações que permitam a valorização dos conhecimentos dos quais dependem estas formas de representações, ou seja, o modo de ser, de saber, e de entender.  Concluiu destacando os perigos de condicionar ações de salvaguarda a uma suposta exclusividade, é que é preciso não se restringi-las à uma vigilância sobre autenticidade, uma vez que as práticas culturais são dinâmicas e historicamente compartilhada entre os grupos indígenas.

O seminário foi seguido por um coquetel, realizado no escritório do Iepé em Macapá, que permitiu o encontro e confraternização entre membros da equipe, representantes indígenas e de órgãos parceiros, e que também foi a ocasião de lançamento da revista “Iepé 10 anos de atuação”, que sintetiza as principais linhas de trabalho da instituição e resultados alcançados.

 Índios do Amapá e Norte do Pará comentam os 10 anos do Iepé

No ano em que o Iepé celebra 10 anos de atuação junto aos povos indígenas do Amapá e Norte do Pará representantes indígenas da região relatam, em seus depoimentos, suas impressões sobre o trabalho da instituição:

Paulo SilvaDigo que o Iepé é um dos parceiros principais que vem depois da FUNAI: é o que nós povos indígenas sempre podemos contar. Tomou à frente nossos trabalhos, carregando no ombro nossas necessidades. No CCPIO, o Iepé tem todo um trabalho de parceria que é fundamental para que o nosso Conselho funcione. Se o CCPIO está hoje organizado e fortalecido como uma instituição representativa dos povos indígenas de Oiapoque devemos isso ao parceiro Iepé. Se temos condições de nos reunir é graças ao apoio do Iepé em todos os sentidos. Se hoje nossos direitos são garantidos é também graças a essa parceria com o Iepé.

Paulo Silva, coordenador do Conselho de Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO):

O Iepé trabalha com as duas organizações dos Wajãpi. O Iepé não tem dificuldade de trabalhar com as organizações dos Wajãpi não. O Iepé sempre faz capacitação para as diretorias, para os Wajãpi avançarem mais, pra saber administrar a organização, diminuir a dependência do branco, isso é muito importante. É assim mesmo que nós queremos. O trabalho do Iepé não é na cidade não. Quando o Iepé vai fazer curso e oficina sempre vai na aldeia pra todo mundo poder participar, todos Wajãpi podem participar da elaboração do documento. O Iepé escreve junto, corrige, discute, assim é bom, assim Wajãpi gosta. Quando os Wajãpi fazem assembleia externa, o Iepé sempre participa, nunca deixa de ir. O Iepé nunca para o trabalho no meio do caminho, o Iepé sempre avança, por isso nós queremos que o Iepé continue o trabalho dele com os Wajãpi. Nós gostamos do trabalho do Iepé também porque as pessoas da equipe não ficam mudando toda hora, e o Iepé só contrata gente que tem experiência com povos indígenas, por isso o trabalho do Iepé é muito bom.

Kumaré Wajãpi, chefe da aldeia Pairakae

Com a ajuda do Iepé, a Awatac conseguiu um parceiro que é a Rainforest que apoia o trabalho da diretoria na cidade e nas aldeias. Sem este apoio os Wajãpi não iam conseguir trabalhar na associação.  O Iepé é o único que está lutando para fazer a formação dos professores Wajãpi. E está fazendo a formação para os AIS (Agentes Indígenas de Saúde) e para os pesquisadores Wajãpi também. O Iepé é o único que está fazendo formação pra gente, para os Wajãpi. Assim, no futuro os próprios Wajãpi vão administrar as suas organizações sem depender do branco. O Iepé vem preparando a gente pra que a gente mesmo assuma este trabalho.

Rosenã Wajãpi, pesquisador e presidente da Awatac

158Nós queremos proteger nosso território. Somos filhos da floresta, vivemos dentro dela. Hoje a nossa terra tá fechada, demarcada. Hoje tem recursos, mas no futuro pode não ter para os nossos filhos e netos sobreviverem. Por isso é importante pensar agora nisso. É muito bom que o Iepé esteja ajudando a gente a pensar o futuro da nossa terra.

Purerewa Tiriyó, chefe de aldeia

270O Iepé está ajudando a fortalecer cultura do Wajãpi, está fazendo a formação dos pesquisadores, pra ajudar a explicar a cultura dos Wajãpi pros brancos, pra fortalecer a cultura nas aldeias. Porque o conhecimento não é para ficar no livro, mas para colocar na prática, os mais velhos têm que passar o conhecimento pros mais jovens na prática, e o Iepé defende isso, tá fortalecendo esta ideia. Queremos que o Iepé continue fazendo assessoria pra gente, porque os problemas nunca acabam e sempre aumentam.

Kasiripina Wajãpi, chefe de aldeia

O curso de formação de professores e pesquisadores que o Iepé elaborou para nós ajudou muito. Os professores tinham muita dificuldade para planejar suas aulas e como ensinar seus alunos. Com o curso, aprendemos a planejar nossas aulas, a pesquisar o que foi perdido dos nossos antepassados, a falar melhor a língua portuguesa, que é a segunda língua para nós, a buscar novos conhecimentos para dar aos nossos alunos. Durante o curso aprendemos também sobre as leis e isso foi muito importante para nós sabermos sobre nossos direitos. Também elaboramos os livros na nossa língua materna e que agora estamos usando com nossos alunos.

Justino Kaxuyana Warawaka, professor

(118)Quero falar do trabalho do Iepé entre nós, Tiriyó. Nós estamos melhorando a união entre os caciques, pois agora podemosnos encontrar nas reuniões que o Iepé promove. As mulheres estão tecendo mais, colocando para fora coisas que estavam esquecidas, porque o Iepé valorizou e apoiou. Nossas crianças estão aprendendo mais com os livros que foram feitos. Queremos que vocês façam com que as mulheres e os jovens continuem seguros no que estão fazendo.

Cacique Geral Shimeto Tiriyó

278Em nome do meu povo, Aparai e Wayana, do Parque do Tumucumaque gostaria de agradecer o apoio que o Iepé está dando para os povos do Tumucumaque. Eu gostaria que o Iepé continuasse com seu trabalho com os povos do Parque, do Leste e do Oeste, para que possamos continuar fortalecendo nossas associações, comunidades e lideranças.

Cecília Awaeko Apalai, Presidente da Apiwa

2012-Encontro-Museus-St-Georges-Luis-D-(41)O Iepé ajudou muito a comunidade com seus projetos na educação e na cultura. Todo projeto que a gente tem com parceria do Iepé é bom. O Iepé deu apoio para melhorarmos nossos artesanatos, comercializar e poder ter um dinheiro para comprar nossas coisas de branco. O Iepé promoveu encontro das mulheres Tiriyó e Kaxuyana com parentes de outras comunidades como as mulheres do Oiapoque. Sem parceria nós não conseguíamos nada. Agora com o Iepé, outros órgãos começaram a nos apoiar como o Museu do Índio e Caixa Econômica Federal. Então isso foi muito bom para nós.

Diacuí Sorá Tiriyó, artesã

Entre setembro e novembro de 2008, os povos indígenas do Oiapoque passaram a discutir a criação do Plano de Vida dos Povos Indígenas do Oiapoque, em cinco grandes oficinas. O Iepé nos apoiou, tanto na coordenação das atividades, quanto organizando os relatórios das oficinas. Simultaneamente o Iepé passou a dar apoio ao Comitê Gestor do Programa Indígena da BR 156 – COGEPI, criado em agosto de 2008. O Iepé intensificou as atividades nas Terras Indígenas do Oiapoque, se fazendo presente nas reuniões com autoridades no Estado do Amapá, assessorando as lideranças indígenas em diversas reuniões para tratar dos impactos causados pela passagem do asfaltamento da BR 156, atuando em defesa dos projetos de compensação e mitigação.

>Domingos Santa Rosa, Coordenador do COGEPI

O Iepé sempre esteve presente no Museu Kuahí, e também no movimento indígena. Para o Museu é de suma importância essa parceria. Passamos por muitas dificuldades e só não sentimos mais por conta da presença do Iepé. Se temos oficinas, treinamentos, cursos de capacitação, é porque o Iepé está à frente e sabe da importância e necessidade de que o Museu possua um quadro de profissionais de alta qualidade e que possa atender as expectativas do público visitante. As oficinas do Iepé nos ajudam a trabalhar melhor com o nosso povo, e também nos ajudam a disseminar nossa cultura para outros povos. O Iepé é mais que parceiro, é amigo da gente.

Márcia Maria dos Santos Oliveira, subgerente do Museu Kuahí

É importante os encontros transfronteiriços para mostrar a nossa luta pelos nossos direitos. Os não-índios estão dominando nossa língua e nossa cultura e por isso precisamos nos unir mais.  Nós temos que apoiar a luta pelos direitos dos povos indígenas no Suriname e na Guiana Francesa. Eles estão sofrendo, porque não tem direito à terra reconhecido. Se conhecermos os problemas, podemos nos unir mais.

Jawaruwa Wajãpi, presidente do Apina

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